Ao trabalho vão as vísceras…

Decorrente da apresentação do “Relatório do custo do stress e dos problemas de saúde psicológica no trabalho, em Portugal”, Francisco Miranda Rodrigues, Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses sublinhou recentemente a importante evidência quanto ao erro de olhar a prevenção em saúde mental como um custo, quando a falta de intervenção especializada, essa sim, constitui um prejuízo evidente para as organizações.

Com este instrumento a OPP alerta assim para o impacto financeiro dos riscos psicossociais no trabalho, sendo necessário agir na prevenção da saúde mental nas organizações. Noutro exemplo, o Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, alertou para “as consequências desastrosas” relacionadas com “burnout, exaustão e o sofrimento ético” em profissionais de saúde.

Contudo, em termos de legislação, continua-se a assobiar para o lado, face à resolução de recomendação ao Governo para implementar medidas obrigatórias de prevenção de riscos psicossociais, aprovada por unanimidade em 2018 na AR.

A avaliação de riscos psicossociais e consequente intervenção garantidas por profissionais com conhecimento científico sustentado, nomeadamente psicólogos, dado o foco no cuidado pelo capital humano, trás sustentabilidade às organizações. Os ganhos são evidentes, num trabalho que deve começar logo pelas lideranças, mas onde só 10% das organizações no nosso país faz algo na matéria.

Se há pessoas no trabalho há vidas, histórias, emoções, sentimentos, pensamentos, traços de personalidade, comportamentos, culturas, relações e outros aspetos numa dinâmica invisível aos leigos mas bem real. Somos feitos de carne, de osso e de vísceras que também vão ao trabalho. É importante compreender.

Caso contrário, promovem-se fatores de risco diversos, desde a ética à comunicação, em matéria de seleção até à organização do trabalho, entre outros. Isto afeta, em mais de 3 mil milhões de euros, a saúde económica das organizações em Portugal por ano. Junta-se o sofrimento psicológico, derivado do stress que pode conduzir a perturbações de ansiedade e de humor, muitas vezes com comorbidades associadas. A exposição ao erro, os acidentes de trabalho, a deterioração da saúde, quebra de confiança e na produtividade são algumas consequências.

As pessoas que compõem as organizações sofrem com a aplicação de ações que afetam pensamentos, emoções e comportamentos, sem considerar inúmeros aspetos que só profissionais com competências específicas e devidamente integrados nessa missão conhecem. Existe um papel de neutralidade e posicionamento deontológico, associado à responsabilidade e competência profissional que só atribui legitimidade de avaliação e de intervenção nesta matéria a psicólogos.

Pela falta de conhecimento, os leigos ficam sensíveis aos problemas já estes estão em fases avançadas ou identificam, como tal, fenómenos que não constituem problema. Aplicam-se então “pensos rápidos” de remediação até se verificar um “emaranhado de problemas” com “feridas profundas” em vidas e relações humanas, condicionando a saúde e a produtividade dos contextos.

Tal resulta em absentismo e presentismo, fenómenos com uma perda média de 6 dias por trabalhador, ao ano, no primeiro caso, e cerca de 12 dias ao ano, no segundo. Afeta 3 em 5 pessoas no trabalho.

Isto sim é prejuízo com uma brutal exposição ao estigma, a esteriótipos, preconceitos e conflitos de interesse ou de papeis, potenciadores de desmotivação e exclusão ou alienação de pessoas contratadas pelos seus talentos para gerarem valor. Quem não gosta de produzir?

A intervenção psicológica, em contexto laboral, permite assim reduzir custos e poupar, desde o recrutamento à preparação para a reforma.

Cabe aos decisores, que também passam por múltiplas pressões e desafios, olharem para dentro e se disporem a promover a dignidade de todos nas “casas” e “famílias” laborais que dirigem. Uma questão de cuidado e de empatia, com ganhos para todos, promovendo locais de trabalho saudáveis.