A culpa é da pandemia

É estimado que em 2050 haverá 9,7 bilhões de pessoas. As cidades serão mais populosas e a sociedade será uma espécie de placa de Petri, que misturará pobreza, carência de infraestruturas básicas (como a água) e desigualdade.

Será um ecossistema favorável a novos e antigos vírus que se espalharão com a facilidade proporcionada pelos tempos e pelos avanços na deslocação das pessoas. Só nas duas décadas deste século mais de dois bilhões de passageiros viajaram por ano de avião. Há 50 anos eram 68 milhões.

No aumento da população e na degradação das condições médias de vida pela escassez de recursos, bactérias e vírus esperam a sua chance de reinar no planeta, ceifar vidas de centenas de milhares de pessoas e devastar a economia do planeta. O HIV, apenas descoberto em meados dos anos setenta, já matou mais de 30 milhões de seres humanos. Enquanto isso, o ébola, relegado por muitos anos às telas do cinema, reviveu no final de 2013, ao abrigo da guerra civil e da miséria da Guiné, Serra Leoa e Libéria. Sem tratamento efetivo provocou mais de 11 mil mortes e perdas de 2,4 bilhões de euros em três países que têm a fragilidade como principal componente de seu PIB. É quase um terço dos cerca de 7 bilhões de euros que, segundo o Banco Mundial, custou a luta global contra a doença.

Tendo em mente que é muito difícil prever o que ainda não existe, e tendo que contar com as mutações que os vírus sofrem ou com as bactérias indiferentes aos antibióticos (sendo esta resistência uma séria ameaça à vida e às poupanças do planeta), em 2015 a Organização Mundial de Saúde publicou uma lista de 11 doenças que ameaçavam ou ameaçam se tornar uma epidemia nos próximos anos. Nada menos que o ébola, o SARS, o MERS, o Marburg, aa febre hemorrágica da Crimeia-Congo, a febre de Lassa, a febre do Vale de Rift, o vírus Nipah, o Chikungunya, o Zika e uma febre asiática ainda sem nome. Para já calhou-nos a versão 2.0 do SARS.

Este é um ‘micro’ problema medido em milhões. A OMS calcula que uma pandemia de moderada a grave custaria qualquer coisa como 560 bilhões de euros, cerca de 0,7% da riqueza do planeta. Mas uma epidemia de extrema gravidade (como a peste negra, que enterrou 200 milhões de pessoas no século XIV) cortaria 5% do PIB. Ou seja, qualquer coisa como 4 triliões de euros. A gripe sozinha, caso aflorasse com virulência, custaria 34,4 bilhões de dólares ao produto interno bruto norte-americano. E se a população não se vacinar, 45,3 bilhões de dólares. Um estudo financiado pela ONG ‘Wellcome Trust’ revela que se até a metade deste século não forem tomadas medidas contra a resistência desses microrganismos, serão perdidos 100 bilhões de euros em produtividade e 10 milhões de vidas por ano.

A este custo geral, acresce a OMS os danos que decorrem da chamada ‘sobrerreação’. O que é isso? Por exemplo tirar as crianças da escola, evitar lugares públicos e locais de trabalho, mesmo com baixos riscos de infeção. Mudar os hábitos e evitar ir ao trabalho, viajar ou fazer turismo durante uma epidemia pode provocar perdas económicas substanciais. O medo da doença paralisa a vida e também a economia. Só o primeiro SARS reduziu em 2% o PIB do Leste Asiático no segundo trimestre de 2003.

Hoje o mundo tenta encontrar um equilíbrio entre as medidas necessárias para salvar vidas da covid-19 e a preservação empregos e empresas, atingidos em cheio pela pandemia. Mas isto não significa necessariamente sacrificar um pelo outro. As medidas de isolamento e quarentena implicaram a redução da atividade económica, com fortes perdas para os trabalhadores e para as empresas, é certo. Porém se os países nada fizessem para diminuir os contágios pelo coronavírus, as consequências económicas seriam ainda mais dramáticas. É que para proteger a economia é necessário controlar a disseminação do vírus. Sem controle, as perdas humanas, sociais e económicas da pandemia são enormes. A OMS e a OCDE concordam que, em última análise, o que impacta a economia é a pandemia, e não as medidas ‘per si’ para controlar o vírus.

Deste modo, grande parte do sucesso da recuperação económica passará pelo necessário controlo da expansão do vírus e/ou da sua reincidência. Pelo que o cumprimento das regras básicas de segurança e higiene impostas às populações (uso da máscara, higienização das mãos, garantir o distanciamento, etc.), em parceria com a introdução de linhas de financiamento dos governos às empresas e famílias, suportadas por políticas comunitárias coordenadas (como as previstas na UE), é a chave para qualquer recuperação económica que se almeje, seja em V, U, W ou outra letra qualquer.

 

Luís Miguel Rosa escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas