Grandes e pequenas medidas contra a crise

O confinamento obrigatório para conter a propagação da pandemia salvou vidas, mas cavou um buraco nas finanças mundiais que ainda estamos por avaliar.

Há quem afiance que se trata da maior recessão económica dos últimos séculos. Por aqui, há quem já garanta que teremos um apagão na economia regional, híper dependente do turismo, com o encerramento em cascata de grande parte das nossas empresas. O desemprego e a pobreza espreitam milhares de madeirenses. Neste momento, os olhos estão postos nas entidades públicas e na sua capacidade de reação. A resposta da Europa já vai sendo conhecida. Pronta e positiva. Como vão sendo conhecidas as estratégias políticas que cada um quer utilizar para acalmar a população respetiva. Sabemos dos muitos milhares de milhões que entrarão nos cofres do país. Sabemos que a Madeira já rejubila com a fatia que lhe deverá caber. Só não sabemos ainda a quantia que deverá chegar às câmaras, se é que alguma coisa vai chegar.  

No todo nacional, já percebemos que na ala esquerda do PS, mais a esquerda radical, que já vaticinavam o fim da UE, há vozes que reivindicam esta ajuda europeia para políticas iguais às anteriores. Mais social. Mais Estado. Mais função pública. Mais direitos laborais. Mais solidariedade. Etc. A cartilha da esquerda. Enquanto no centro-direita se vai clamando por reforço do tecido económico, com apostas estratégicas que possam garantir mais trabalho e riqueza para todos no futuro. Vamos ver se é desta que as coisas mudam no país. Os erros do passado recente são conhecidos de todos. Tudo agora vai depender do rumo do governo de António Costa. Porque a responsabilidade da recuperação de todo o país cabe, em primeira mão, ao Governo da República. Se bem que na Região haja um trabalho titânico para fazer. A Madeira já deu provas de saber fazer a sua parte, mas tem a dificuldade acrescida do governo central, neste momento, demostrar ter olhos apenas para a região turística do Algarve. O que vem dar razão e reforçar a narrativa autonomista do PSD regional.

Entretanto, a nível local, já todos fervilham numa azáfama de ações e promessas para que o respetivo eleitorado não se esqueça que também eles cuidaram da doença e da tão desejada recuperação económica.  Há que capitalizar o que vier de bom e ir passando culpas pelo que correr mal. Sem esquecer que para o ano há eleições autárquicas. 

Não sendo correto exigir dos municípios os meios políticos ou financeiros para ir superando tamanhos obstáculos, há que apreciar a ginástica administrativa de certos autarcas. Parece valer tudo. Há apoios em catadupa, com anúncios na comunicação social. Neste momento, ninguém se importa com questões de legalidade. Há ajudas para tudo o que mexe. Dinheiro para aqui. Subsídio para acolá. Reduções de taxas. Isenções. É um autentico leilão de facilidades. Até a oposição faz propostas aos molhos. Ninguém quer ficar mal na fotografia. Até porque para o ano há eleições locais.

Há mesmo daquelas originalidades que nos deixam de boca aberta. Em Machico, por exemplo, foi anunciado, com pompa e circunstância, um programa de apoio às pequenas empresas. Uma feira que se vai realizar no ano de 2021. Isto sim. Isto é que é criatividade. Um apoio anunciado com aquele sorriso pasmado de quem acabara de ganhar uma querela paroquial pela tutela dos fachos. Uma discórdia de respostas ácidas e despropositadas, mas regada com vitória e fogo de artifício.

 

Emanuel Gomes escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas