Todos ralham e com razão

A pandemia que atravessamos parece fazer questão de contrariar o provérbio: nas circunstâncias atuais, todos ralham e todos têm um pouco de razão. Como ninguém pode tirar conclusões de coisíssima nenhuma, a verdade ainda não é de ninguém e está à mercê das estatísticas do dia de amanhã, da próxima semana, do mês que vem…

Até o esclarecimento cabal sobre o rumo que os comportamentos em público e em privado devem ter, vamos continuar a tropeçar em contradições, em exageros de todas as partes, em desconfianças e em meias verdades. E sobretudo em números que vão continuar a flagelar as empresas e as famílias que não têm o Estado como providência única.

Comecemos pelas famigeradas máscaras. São mais do que muitas as contradições da sua utilização excessiva ou indevida. Não é preciso ser médico para se perceber as contra-indicações dessa fobia num idoso que atravessa a cidade, ofegante, a respirar e a inspirar o ar em circuito fechado naquele trapinho. Ou o ridículo de termos de entrar num restaurante com o trapinho na boca, apenas durante os três segundos até nos sentarmos.

Há que ver o lado positivo: para além das inúmeras situações em que o uso da máscara faz todo o sentido e demonstra respeito pelas outras pessoas (em especial nos serviços públicos frequentados por muitas e diferentes pessoas), a fobia da máscara sensibiliza-nos para a inevitável obrigação de estarmos alerta e para o abandono de alguns comportamentos e atitudes displicentes.

A contradição espreita também noutras situações, como os ajuntamentos para ver um rali ou para tomar uns copos em ambiente de verão. Fica difícil ter razão quando se permite um estabelecimento servir os seus clientes até uma determinada hora e, depois do minuto tal, já não se pode consumir nada dentro do estabelecimento nem na vida pública que lhe dá acesso.

Depois, há também as incongruências e os perigos de um ajuntamento para ver uma prova desportiva ao ar livre. Todas as teorias caem por terra se houver um contágio. Mas se não houver, todos se perguntam pelo porquê de tanto rigor.

As contradições sobem de tom se falarmos de economia. Queremos empregos salvaguardados e salários em dia sem produzir nada, sem vender nada? Queremos aviões de volta e turistas nos hotéis e fora deles sem correr o risco de importar o vírus? Perguntas difíceis com respostas ainda mais complicadas. Sim, todos temos razão.