Um crocodilo, uma lontra, um coelho e um boi

Este ano está a ser pródigo em anormalidades. Mundial ou localmente, já fomos brindados com tanta bizarria que nem um circo do século XIX conseguiria superar.

Se não é suficientemente bizarro assistir a funcionários públicos alegadamente em teletrabalho a bronzear os presuntos na praia, deixar os sapatos à porta e esfregar os botões do elevador com tanta convicção que o círculo de silicone protetor desiste da vida e suicida-se mandando-se para o poço daquele para nunca mais ser visto, ficar com dores de cotovelo por usar essa parte do corpo para abrir portas, tocar campainhas e todo o tipo de botão, chegar do supermercado como quem chegou duma batalha, ouvir uma senhora chingar outra porque trazia o cão ao colo e não no chão, ter de usar fraldinha na cara, entrar numa loja quase quatro meses depois e enfrentar mais regras que as que os Católicos têm de seguir no “Levantar a Deus”…

Com tudo isto até nos esquecemos que sentimos um sismo lá para os idos de sete de março, não é? Pois, mas é. Nós madeirenses habituados à pacatez da nossa crosta terrestre também fomos brindados com um abanico tectónico. O sítio onde eu estava batiam palminhas os copos e eu dei Graças a Deus pela flexibilidade pós 40 (por cinco dias) que me permitiu escanchar o suficiente para passar por debaixo duma varanda de Louboutins para cima sob o riso de gozo de uns para quem levantei, mentalmente, um dedo (o polegar, então?).

Cansadinhos de bizarria? Calma, há mais. Deu a louca nos meus quatro coelhos de estimação, aqueles que alguns amigos meus estão ansiosos por adoptar e colocar numa casota chamada forno, ou seja, a Joana, o Esmeraldo (o que perdeu as joias da coroa e é carinhosamente chamado de “destomatado”, em homenagem a todos os que por aí não os têm no devido sítio), a Clara e a Bolota. Tem sido um regabofe de extremismos esquerdistas e de direita naquela varanda, com Joana atrás de Esmeraldo, Bolota atrás de Clara e Esmeraldo atrás de ninguém…está ali uma varanda de gays, transgénero, castos e abstémios que me faz ponderar, ora só faltava cá em casa um comunista! Deus me livre! E eis que me lembro da cadela, que marca todos os sítios onde passa porque “o que é meu é meu, o que é teu é nosso”.

Mas, porventura acham que o fenómeno varanda do “Entroncamento” só sucede por aqueles lados da cidade? Ainda ontem vi um vídeo dum coelho a sair do mar, a nado. Notícias acerca dum crocodilo do Nilo que afinal parece ser uma lontra, mas que também pode bem ser o monstro de Lochness que furou a quarentena e veio passar férias à Península Ibérica. Não se sabe, no momento em que escrevo este texto pode mesmo vir a ser apenas um taínha obesa. Há pouco li sobre um boi que se atirou dum barco e foi resgatado pela Polícia Marítima, terão usado uma rede de pesca ou uma daquelas bóias que os atores sexy das “Marés Vivas” usavam? O que deu na cabeçorra daquele boi? E daquele coelho? E daquele crocodilo feito lontra, feito monstro, feito taínha obesa?

Estará a salvação na água? Tragam a benta, este ano está a precisar duma cura contra o olhado. Amen.