A vida do emigrante imigrante

Portugal com uma dimensão geográfica pequena, conta com uma população residente estimada em 10.286.263 de habitantes, e uma grande Diáspora de cerca de 5.000.000 entre portugueses e luso descendentes. 

A Venezuela detém a segunda maior comunidade portuguesa na América latina, contando com mais de 400.000 mil portugueses e luso descendentes.

Apesar de haver registo de madeirenses na Venezuela desde a década de 20, foi a partir dos anos dos 40, indo até os anos 80, que se verificou um aumento migratório para a Venezuela, que acolheu de braços abertos uma vasta comunidade portuguesa vinda, principalmente, da Madeira, para dar início a uma nova vida naquele país, aproveitando o processo de abertura política e de modernização que imperava naquele país. 

Os madeirenses que deixaram a Madeira rumo a Venezuela, na maioria, mantiveram uma grande ligação à terra que os viu nascer, deixando um grande impacto na nossa região: as típicas construções e reabilitações das casas de família; os passeios de carros americanos; e um dos mais importantes foi, sem dúvidas, as remessas enviadas para Portugal, que passaram a ser uma importante fonte de rendimento das famílias que cá ficaram e que dinamizaram em muito a economia, alcançando quantias de 40 milhões de euros em 2002. A partir do ano 2013 estas receitas foram diminuindo, de forma drástica, até os nossos dias.

No entanto, o tempo muda, a vida segue e hoje o quadro é diferente, porque muitos dos portugueses que emigraram para a Venezuela e seus descendentes, sentiram, nestes últimos anos, a necessidade de regressarem à perola do Atlântico, em busca da segurança, da abertura política e da modernização que, na década dos 40, receberam da Venezuela e dos venezuelanos. 

Porém, não foi isso o que alguns dos nossos regressados receberam da sua gente e da sua terra.  Muitos foram surpreendidos com grande ressentimento, raiva, e até condutas xenófobas cuja causa desconheciam. Sucedeu que aquelas férias dos imigrantes, deixaram grandes marcas de rancor nesta terra maravilhosa, surpreendentemente contraditora para uma região de imigrantes, e por isso pagaram os justos pelos pecadores.

E digo alguns, porque são ainda mais os braços abertos, reconfortantes e cálidos de quem recebe bem aos portugueses que regressam da Venezuela e os luso descendentes, do que aqueles que os ferem com palavras e atitudes xenófobas.

Como vemos a história da nossa ilha está escrita de fugas, no início, daqueles que saíram da Madeira rumo a distintos pontos do mundo, como a Venezuela, uns pelo excesso demográfico da ilha e outros como forma de ganhar dinheiro para sustentar sua família; hoje, fogem os mesmos portugueses e suas primeiras e segundas gerações, dos países de acolhimento que se encontram em situações de crises sociais e económicas, em busca de refúgio, de segurança e de paz.

Não é fácil fugir. Não é fácil emigrar. Porque não é fácil colocar a vida numa mala. Custa deixar tudo para trás, a família, os amigos, as nossas recordações, aqueles lugares que dizem muito e contam a nossa história, e nos fazem ser, quem somos. É carregar com perda, com o apego e com a saudade.

Os madeirenses que saíram, os que ficaram e os que hoje regressam, tiveram uma vida de aventuras, de trabalho e mais trabalho, de sucessos e de insucessos, levando sempre a Madeira e a Venezuela no seu coração, sem esquecer as suas terras e sem deixar a ninguém para trás.

Ana Cristina Monteiro escreve

à quinta-feira, de 4 em 4 semanas

A vida do emigrante imigrante

Ana Cristina Monteiro

Presidente da Venecom