Em Dia da Região, a(s) ilha(s)

«Vinde à ilha. (…) E onde quer que vos conduzam os seus dedos de flor de jacarandá, o mar purificador, permanente ablução da alma insular, vos lavará os olhos. E então vereis jorrar, invicta, a fonte do poema».
(Natália Correia).

O convite é de Natália Correia. Podia ser de um qualquer ilhéu. Só quem tem uma alma insular consegue perceber as ilhas como fonte do poema. E o poema é a vida, a que se foi construindo, entre a terra e o mar, entre a areia e a floresta, entre a montanha e o sol.

A poesia mora nestas ilhas. Verdes. Azuis. Fortes. Delicadas. Mora no silêncio líquido da beira-mar. Mora no universo que compõe quem somos: água e secura, raiz e pranto, vida e esquecimento. Tem palavras de sol e de maresias, de infinitos areais e rochas guerreiras que protegem os versos do vento leste. E as rimas sabem a vinho de roda, ao canto rubro das vindimas, à dança dos braços que se rasgam nos canaviais. Lembram as fomes que se seguiram às doenças da vinha, às secas ou às aluviões. Falam do grito das gaivotas e do perfume dourado da Malvasia. Contam de regressos e de desenhos sagrados da Flandres, guardados em arcas e depositados na beira do vulcão. Falam de saques de piratas, de fomes e de lutos. Falam de um tempo que já não é, porque as gaivotas o levaram no bico para alimentar os seus ninhos. E dizem que a coragem pode, perfeitamente, rimar com a esperança.

E nós, ilhéus, que morremos de saudade dos apitos dos navios que arrepiam as paredes da cidade, temos andado a bordar jardins em campos de linho e de cambraia. Os dedos de jacarandá de uma ilha e o areal sagrado da outra alindaram-se para receber quem vier por bem.

E convidamos. Temos a comida ao lume e a mesa posta. Andam por aí as metáforas. A fonte do poema espera por si.