O esgoto no centro do pensamento político

É impossível ficar indiferente ao modo peculiar como a nova liderança política no Partido Socialista se procura afirmar na oposição regional.

Enquanto a Madeira luta por conseguir ser incluída em corredores sanitários seguros, com diferentes países de origem do seu turismo potencial, assistimos ao candidato a presidente do PS/Madeira a falar de esgotos.

Não que o tema não seja relevante, antes pelo contrário.

Porém, aparecer em Machico com alguns deputados e com o Presidente da Câmara Municipal a seu lado, para atacar a empresa pública que está a transformar de forma consistente todo o sistema de gestão e funcionamento das drenagens de águas residuais é demasiado pobre para além de intelectualmente desonesto.

A empresa Águas e Resíduos da Madeira está a investir 4 milhões de euros nesses trabalhos, que permitirão conferir maior qualidade de vida e segurança à população de Machico. Isso também representará um forte contributo para a melhoria da qualidade das águas balneares.

O desconhecimento evidente deste tema fez com que a vontade de criticar o Governo fosse mais forte do que o discernimento.

Aliás, Paulo Cafôfo fez do trabalho da ARM uma arma de arremesso que deliberadamente o Governo Regional estaria a atirar contra Machico, só porque ela é governada pelo PS.

Pobre no conteúdo. Ridículo no desfecho. Quis ensinar o Presidente da Câmara de Machico a lidar com a situação incitando-o a apresentar queixa no Ministério Público.

Mas não foi capaz de perceber que a Câmara Municipal está a acompanhar todo este processo.

Que as descargas ilegais que ainda existem, decorrem de ligações clandestinas diretamente feitas para efluentes de ribeiras, que o município podia e devia fiscalizar, isso sim em defesa da saúde pública e da qualidade ambiental das suas praias.

Mas nem sempre os temas do esgoto dão para muito discernimento e clarividência, pelo que deu no que deu.

Compreendo que este tema, de águas residuais e escorrências de tubos ilegais diretamente da sanita para o ribeiro, possa ser mais fácil para a tentativa de afirmação de uma liderança política no maior partido da oposição.

Naturalmente que nós Madeirenses, a braços com uma pandemia que nos mata a economia, limita os movimentos e preocupa sobremaneira pela incerteza dos meses que se aproximam, nunca poderíamos esperar contributos sobre a) o porquê do Partido Socialista nacional recusar dar um aval ao empréstimo que a Madeira vai pedir, b) o que pensa Paulo Cafôfo sobre a recusa da moratória sobre as próximas prestações dos empréstimos que a Região tem pela frente, c) que visão tem acerca da TAP e da forma como deve esta companhia ou não acautelar as ligações com as Regiões Autónomas – já que Lisboa vai injetar qualquer coisa como 1,2 Mil Milhões de euros públicos na empresa, d) uma qualquer diligência (vulgo murro na mesa) para que o Governo Português não contamine todo o trabalho feito pela Madeira e pelos Açores – que agora são confundidos com um Portugal indesejado a quem vários países fecham a porta e impedem cidadãos seus de para cá viajar.

Sim. Pedir a Paulo Cafôfo para ter pensamento consistente sobre estas matérias e tomadas de posição públicas ao lado dos Madeirenses e Porto-Santenses é na verdade pedir muito.

Está visto que a sua escolha foi mesmo afirmar a sua liderança por via do esgoto de Machico.

Escolhas!

Medeiros Gaspar escreve
à terça-feira, todas as semanas