Quando a vida te vira ao contrário

Quando a vida te vira ao contrário, ou quando tu viras a vida ao contrário?

Quando é que tudo começou? Penso que começou muito antes de ter começado. Faltam-me as palavras para descrever esse começo do património genético que a memória mantém escondida. Quando a vida te vira ao contrário ou quando és tu que te viras a ti próprio ao contrário? Cinco, seis, sete meses lá estamos nós a dar a volta...

Quase todos ficamos de cabeça para baixo, de forma a ter um novo início. E depois lá vem o obstetra e nos coloca de cabeça para baixo, novamente, para nos ouvir chorar e saber se estamos “prontos” para esse começo. Tiram-nos da nossa zona de conforto para entrarmos num mundo desconhecido. Culpamos o médico que nos tirou do conforto, ou culpamos os nossos pais que nos colocaram num mundo de riscos. Pois… sempre a culpar os outros...

Passamos no semáforo vermelho da realidade e cristalizamos ilusões, por isso pensamos que estamos ao contrário, quando é somente um novo prisma. Um prisma, que num dos vértices tem uma ida à farmácia com 400 mil antidepressivos e ansiolíticos (vendidos) para colmatar a ansiedade e os medos desse desconhecido, que passa a ser conhecido num tempo em que se apressa a água do rio.

Estamos todos, ou quase todos, a pensar que a vida nos virou ao contrário e permanecemos relutantes em aceitar os indicadores que nos rodeiam como fonte desta inclusão/exclusão de “isolamento social”. A vulnerabilidade começou a aparecer com mais frequência numa sociedade que necessita de trabalhar mais a literacia emocional. Os instantes passaram a ser apressados com receio que termine o AGORA. Confiança vs desconfiança seria o mote da atual sociedade numa dicotomia de círculos viciosos onde nos colocamos. É essencial mergulhar na teoria da Gestalt e perceber o que existe em nós. Dar atenção à nossa capacidade percetiva sem ter de controlar, engendrar ou mesmo dominar quem nos rodeia.

Mas afinal quem te virou ao contrário?

Mergulhas até ao fundo do iceberg mesmo sem saber nadar, emerges do nada numa ausência de afetos que insistes em eternizar, manténs uma inconsistência de decisões pela ilusão da mudança, renovas o pensamento, ativas o teu potencial de verdade interior e mesmo assim o surto de urticária continua e continuas a achar que é a vida que te vira ao contrário.

Hoje o instante é apetecível e apresso-o numa vontade fogaz! Amanhã, já não existe. Porque amanhã as estruturas de um ego centrado apenas em si, impedem que esses instantes se transformem numa continuidade extasiante.

O reflexo da simplicidade com que nascemos fica camuflado pelo desrespeito que o isolamento social ainda NÃO ensinou. E continuamos a dizer que a vida nos virou ao contrário.

Hoje, com um novo começo e o poder intuitivo dos valores que habitam em muitos de nós, podemo-nos restaurar sem desespero, sem pressa, apenas com a visão clara que somos nós que viramos a vida ao contrário. Esse contrário, não é mais que o caminho certo que um dia o medo não nos deixou seguir.

Helena Oliveira escreve
à terça-feira, de 4 em 4 semanas