Religião: Música

Gosto de vangloriar-me como alguém que ouve todo o tipo de música.

De pop a rock, hip-hop a metal, rap a punk, jazz a eletrónica, clássica a pimba. Acredito, piamente, que há sempre uma música apropriada para cada lugar e momento. Podemos ouvir música clássica quando estamos num momento de introspeção e música pimba no meio de um arraial com mais meia dúzia de pessoas, todos intoxicados dentro do limite legal.

Claro que em cima não mencionei todos os géneros de música que oiço, procurei ser o mais abrangente de modo a não tornar esta crónica numa lista de supermercado em modo de musical; isto foi um à parte para não ser depois acusado de não ouvir reggae, folk, fado, música ambiente, bossa nova, entre outros géneros que enchem o terceiro calhau a contar do sol.

A música por vezes assume um carácter religioso. Daqueles que movem montanhas, e multidões. Tivemos a Beatlemania, algo que não foi do meu tempo, mas que sempre associei a esse aspeto. Durante os gloriosos anos da banda de Liverpool haviam multidões a acompanhá-los por onde quer que fossem, iam em peregrinação atrás do quarteto fantástico, ouvindo a mensagem, exclamando a mesma e acabavam por transmiti-la aos amigos e familiares o que se tinha passado na missa daquele dia.

Houve vários fenómenos desse género - nos dias de hoje ainda ocorrem alguns, mas parece que em menor número-, o que mostra o poder que um simples som pode ter.

Som, esse item fundamental da vida humana. Conseguimos comunicar através de sons, as palavras que emitimos são projetadas através disso, do som. Som esse que acaba por ser uma peça-chave em como a música é feita, daí, talvez, esta minha obsessão por ouvir tudo o que apareça, tudo o que sai da rádio – embora muitas vezes sejam sons “repetidos ao expoente da loucura”, já cantava o Manel -, todas as sugestões que são apresentadas no Spotify, tento absorver isso tudo à procura do som perfeito. Por vezes encontro-o, mas é só som, por muito que possa mexer com os meus sentimentos, que mexe, por muito que possa provocar uma reação, que provoca, às vezes parece ser insuficiente para provocar uma ação. Falta a palavra.

A palavra é o que acaba por tocar na alma. A palavra associada ao som torna-se numa ferramenta poderosa, capaz de provocar revoluções - Grândola perdida no meio do Alentejo, símbolo da nossa resistência -, de conquistar o coração de alguém, penso que 90% das canções são baladas de amor, e de expulsar os demónios que assolam a nossa alma. Mas as palavras por vezes são inseridas em loops desnecessários que tornam uma música em algo vulgar, sem sentimento, mas nem todas as músicas precisam de dizer algo, de mover o mundo, ou provocar revoluções, por vezes necessitam somente de levar-nos para outros tempos e lugares menos complicados, em que o pensamento é só “one for the road”, como diz o Bruninho.

Apesar disso continuo sempre à procura da experiência religiosa e extracorporal que ocorre quando encontro o som em perfeita sintonia com a palavra. Tenho somente de empurrar e continuar a empurrar o céu para cima, para quando alguém diz que “é somente rock and rol”, responder “mas atinge em cheio na alma” e para isso acontecer tenho de continuar a empurrar o céu, até chegar à derradeira experiência que música pode oferecer.

Eduardo Azevedo escreve
à terça-feira, todas as semanas