Efeitos colaterais psicológicos do COVID-19

O impacto psicológico da pandemia coronavírus 2019 (COVID-19) deve ser reconhecido juntamente com os sintomas físicos de todos os afetados.

Os sintomas psicológicos relacionados ao COVID-19 têm sido investigados internacionalmente, incluindo o pânico motivado pela ansiedade e a paranoia quanto ao afastamento radical das pessoas da sua comunidade e da sociedade em geral. Estudantes e trabalhadores que foram impedidos de frequentar os estabelecimentos de ensino e os seus locais de trabalho, respetivamente, e turistas impedidos de regressar a suas casas, desenvolveram sintomas psicológicos devido ao stress e à redução de autonomia/liberdade, acrescida ainda a preocupação com salários, ameaça de desemprego, empresas em risco de falências, falta de segurança e assim por diante.

Muitos países já estão a olhar para os efeitos colaterais psicológicos do COVID-19 e a manifestar preocupações relativamente aos impactos a longo prazo do isolamento, colocando-se “na mesa” que o medo e o pânico na comunidade podem causar mais danos do que as mortes por COVID-19.

Na ausência de uma cura médica para esta pandemia, a resposta global é uma estratégia simples de saúde pública de isolamento para os infetados ou pessoas em risco (idosos, pessoas com problemas respiratórios e afins), distanciamento social para retardar a propagação do vírus e medidas de higiene, como lavar/desinfetar as mãos para reduzir o risco de infeção. Embora a intervenção primária do isolamento possa alcançar os seus objetivos, ela reduz o acesso ao apoio de familiares e amigos, e degrada os sistemas normais de apoio social e causa a solidão, além de ser um risco de agravamento da ansiedade e de sintomas depressivos, particularmente junto de populações já fragilizadas.

Se não tratados, estes sintomas psicológicos podem ter efeitos a longo prazo na saúde dos pacientes e exigir tratamento farmacológico, aumentando a carga de custos da gestão da doença. Trabalhadores em geral, sejam clínicos ou não clínicos também correm o risco de sofrimento psicológico, pois espera-se que trabalhem mais horas e, muitos deles, com um alto risco de exposição ao vírus. Tudo isto também pode levar a um aumento de stress, ansiedade, burnout e de sintomas depressivos, o que pode provocar baixas médicas por incapacidade profissional, tendo tudo isto um impacto negativo na capacidade do sistema de saúde de prestar serviços durante esta crise.

De facto, desde março de 2020, registaram-se 40 866 infetados e 1555 mortes por COVID-19 em Portugal. É uma realidade assustadora, sem dúvida. Contudo, embora seja necessária uma consciencialização das taxas de mortalidade associadas ao COVID-19, também devemos estar cientes do impacto das medidas restritivas do COVID-19 na saúde mental, tanto a curto quanto a longo prazo. Será mesmo muito dispendioso investir na contratação de psicólogos, sabendo o número de desempregados nesta classe profissional e os benefícios que podem trazer? O investimento em psicólogos não é um luxo; é um bem necessário e urgente para a saúde dos portugueses e, em última instância, para a economia do próprio país.

Margarida Pocinho escreve
à segunda-feira, de 4 em 4 semanas