Falar sério!

Desde miúdo que o Marítimo é uma paixão. Por influência clara do pai, não é só o clube da minha terra, mas é também o clube que aprendi a gostar e a me identificar.

E isso vê-se nas pequenas coisas: nenhum outro clube mexe comigo da forma como o Marítimo faz; com nenhum outro clube fico chateado e maldisposto nas derrotas e exuberante nas vitórias; nenhum outro clube faz-me trocar todo um horário de um dia organizado apenas para o ver jogar; nenhum outro cria a antecipação do dia de jogo; e claramente nenhum outro clube faz-me perder tanto tempo do meu dia. Mas tudo isto faço-o com gosto e com sentido de missão. Porque o Marítimo é mais que uma agremiação desportiva, é um símbolo e uma ambição de sucesso. É na convicção deste ideal que luto contra o estigma do ‘qual é o teu clube grande’ e que defendo o meu Marítimo em qualquer fórum.

Mas sem prejuízo do lugar que qualquer modalidade tem por direito, foi essencialmente por causa do futebol que tudo isto aconteceu. Comecei a prestar mais atenção ao ‘jogo jogado’ no final dos anos 80. Nessa altura estava na forja um Marítimo que viria a escrever páginas douradas no seu historial, com a primeira classificação para uma competição europeia em 1993. Nessa altura militavam nomes como o saudoso Ewerton, Heitor, Vado, Gustavo, Jorge Andrade, Edmilson, Ademir, e ainda o grande Alex, entre muitos outros madeirenses, como o Zeca, o Paiva ou o Eusébio. Aos comandos de um grande senhor do futebol Paulo Autuori. Na presidência Rui Fontes. Foi uma década a afirmar o Marítimo como clube de topo e como novel candidato europeu. Este estatuto consolidou-se na primeira década do novo milénio, já com Carlos Pereira como presidente. Foram 4 classificações europeias nesse período e no plantel pululavam nomes como Van der Gaag, Pepe, Kenedy, Danny, Iliev, Sabry, Gaúcho, Toedtli, Sumudica, Bruno, Alan, Silas, Bino, Manduca, Pena, Marcinho, Chaínho, Mossoró, Makukula, Rafa Miranda, Roberto Sousa, Djalma, Kléber, Olberdam, Benachour, entre muitos outros. Nesta década só por duas vezes o Marítimo alcançou tal desiderato e, com excepção das duas temporadas com Daniel Ramos, a equipa tem caído a pique na classificação, demonstrando grandes dificuldades em acompanhar o comboio da frente.

Paradoxalmente (ou não) é no período deste menor fulgor que o clube faz crescer o seu património imobiliário e que concretiza um dos velhos sonhos, o novo estádio. Fez-se um lar, uma escola, um pavilhão, um complexo desportivo e fala-se numa série de projetos novos, entre os quais uma academia. Há escolas protocoladas no Brasil e no Japão, e uma fundação com projetos filantropos além-fronteiras. Não discuto a importância destas iniciativas, dentro e fora da Madeira, porém, não deixa de ser relevante (e indesmentível) que aquilo pelo qual o Marítimo é acima de tudo referenciado e conhecido no mundo, seja a área mais em crise do momento. Por muitas aventuras em que o clube se meta, seja em que formato jurídico se apresentar, a sua bandeira e cartão de visita é a sua equipa de futebol. E é assim em todo o lado. Todos os colossos mundiais apresentam-se com as conquistas das suas equipas e é nelas que apostam para crescer e conquistar mercados. É a partir daqui que tudo começa e não o contrário.

Nos últimos anos temos vindo a assumir que os custos que o clube teve que suportar para crescer imobiliariamente tiveram impacto direto na qualidade das suas equipas. Que os mercados abastecedores estão mais caros. Que os jogadores e os seus empresários são mais exigentes. Que os ‘novos ricos’ fizeram disparar a concorrência. É certo. Porém, por outro lado, não é possível ignorar algumas opções tomadas que nos levam a questionar o seu próprio custo: desde a insistência em manter três equipas séniores (A, B e sub-23), fazendo crescer a folha salarial mensal e sem sequer retirar grandes dividendos desta aposta. A falta de projeto desportivo que se consubstancia na contratação de treinadores com perfil distinto e muitos sem qualquer tipo de currículo, fadados ao insucesso. A igual insistência em manter modalidades em competição federada, para bem da imagem de ‘clube eclético’, mas sem qualquer retorno para o clube, quer em termos de representação nacional ou internacional, estando a maioria a competir em divisões inferiores e em condições discutíveis.

Com querer ter tudo, podemos ficar sem nada. Se porventura a equipa descer a divisões secundárias é a cabal demonstração da teimosia e da falta de vontade em perceber que os tempos mudaram e que a especialização e a aposta sectorial (menos número, mas mais valor qualitativo) é o caminho certo. A potencial descida implica uma quebra de receita incomportável para as obrigações do clube, isto sem falar do que significa para nós, os adeptos! Neste momento pouco se pode fazer que apoiar aqueles que têm a responsabilidade em garantir que ficamos entre os melhores. Mas exige-se posições sérias no fim da temporada.

 

Luís Miguel Rosa escreve
ao domingo, de 2 em 2 semana