A missão da universidade

Grande parte das instituições de educação superior, por toda a Europa, têm não apenas uma função social e cultural, mas também a missão de desenvolvimento das regiões, inclusive do ponto de vista económico.

É inegável o forte contributo dos programas europeus de financiamento à ciência e das suas instituições de investigação. No entanto, as universidades regionais periféricas e ultraperiféricas têm, muitas vezes, uma dimensão micro que lhes impede de aceder a este financiamento. A descentralização geográfica da investigação é fundamental tal como é urgente a reflexão sobre a missão da universidade: ensino ou investigação? Qual a justa medida? Qual a razão, ou razões, para que a implementação dos projetos europeus de investigação ligados aos desafios societais tivessem ficado aquém dos resultados esperados? Terá alguma coisa a ver com a dificuldade em a própria universidade definir os seus objetivos sociais? De perceber aquilo que lhe é intrínseco, isto é, ser mundo?

A profissionalização “nanométrica” destruiu, na universidade, a ideia de tempo. O tempo das ideias e da cultura. Subtraímos das instituições de educação superior a demonstração da genialidade cultural e intelectual. Não há financiamento europeu suficiente que possa ser investido para inverter a estreiteza do pensamento. “Um homem de cultura degenerada é um sério problema e sentimo-nos profundamente perturbados quando observamos que os nossos homens públicos, (...) carregam os signos dessa degeneração” (Nietzsche, 1979, p. 128).

Muitas vezes, estas instituições alienaram o seu conhecimento conforme as necessidades dos mercados públicos e os privados. Até aí, na questão da comercialização da ciência, poderemos e devemos saber lidar com o nosso ceticismo, pressupondo que essa “venda” se destina ao desenvolvimento social e ao crescimento económico.  Mas o que é a investigação científica, por exemplo, para fins militares senão a submissão mais rasa e inversa a tudo aquilo que a universidade deveria proteger? A Cultura e o Conhecimento? A Igualdade e a Justiça? A Verdade como ideia reguladora? 

Só na investigação e defesa, a França, o Reino Unido e a Alemanha desenharam um investimento de oito mil milhões de euros, anuais, através do Fundo Europeu de Defesa que vai beber ao novo Horizonte Europa. Mil milhões de euros anuais, desde 2020, destinam-se à alavancagem do projeto. Prevê-se que esta despesa irá gerar um investimento de cinco mil milhões de euros, anualmente, a partir deste ano. É esta a relação objetiva entre investigação, ciência e humanidade? Não tenho nada contra a investigação para fins militares, mas que não vá beber ao Horizonte Europa.

Claro que todos nós queremos e muito uma maior ligação da ciência às pessoas. Mas queremos ainda mais uma união da universidade consigo mesma. Acredito que seremos capazes de encontrar o justo equilíbrio entre a ciência e a indústria e a universidade e a sociedade. Quando se nega a desígnio de universidade como lugar de liberdade recusa-se o mais respeitoso campo da intervenção política inerente a estas instituições, se por política entendermos a ação para o Bem Comum. As instituições universitárias “fizeram em pedaços o homem europeu” (Ortega Y Gasset, 2003, p. 52). Não há nenhuma fatalidade institucional neste quadro. A questão é saber se queremos mantê-lo. Creio ser possível repensar a missão da universidade sem precipitar o projeto histórico de cultura que lhe foi legado pelo Iluminismo.

Liliana Rodrigues escreve
ao domingo, de 4 em 4 semanas