Subir e cair do pedestal

A História que, ainda jovem, aprendi na escola, valia o que valia. Era um mundo de valores modelares que pareciam perenes, lineares. Um mundo que se foi desconstruindo.

Fui-me apercebendo que a História afinal não era imutável. Que a narrativa e valoração dos factos passados dependia da cor dos óculos que norteiam o nosso presente. Dos valores e crenças atuais. Que Ulisses afinal não passava dum grande matreiro, Aquiles dum reles sanguinário ou Afonso Henriques dum potencial matricida. Que nem os heróis nacionais cantados por Camões e idolatrados por Pessoa, nem eles próprios, por este andar, resistiriam à perseguição implacável do politicamente correto ou à fúria tribalista das redes sociais. As estátuas sempre caíram. A novidade está no modo e na velocidade com que se quer reescrever a História. Na rapidez com que, em democracia e liberdade, se passa de bestial a besta.

Agora percebo também porque é que Alberto João Jardim nunca quis que lhe erigissem uma estátua. Porque ele sabia que não há valores duráveis. Tudo é mutável. Absurdamente mutável. Absurdo, tanto quanto pode ser absurdo este caótico pós-modernismo. Ele sabia e não queria ter a dor antecipada das barbaridades duma qualquer turba de complexados, criados e crescidos no conforto desta Madeira Nova. Não. Por enquanto, ninguém vomitaria em cima da sua representação. Quem de entre eles se lembraria do negrume social da Madeira Velha. Quem de entre os beneficiados se lembraria dos que saíram da furna. Dos que não tiveram de emigrar. Dos que passaram a ter teto, luz, água ou sanita. Agora, saídos da universidade, pela qual ele tanto lutou, lembrar-se-iam sim do estilo pouco convencional e disso retirariam argumentos para o achincalhamento, para o derrube, para a negação. Na atualidade o herói deu lugar à negação, à negação do outro, à ilusão do igualitarismo. Ao narcisismo das selfies partilhadas. Este não é o momento para glorificação do outro. Este será porventura o tempo daqueles que não têm estatura para cair e se refugiam no tribalismo, por vezes anónimo, das redes sociais.

Volto a lembrar a série televisiva que contava a história dum mayor do estado de Nova Iorque que se tinha batido pela construção dum bairro social para pobres maioritariamente negros. Levou porrada da maioria branca da classe média-alta que vivia nas redondezas. Passados anos, depois de reformado, por curiosidade, voltou ao local para ver como é que tinha sido a integração. Os brancos, mais ricos, reconheceram-no logo e voltaram a chingá-lo. Os negros que passaram por ele no bairro nem sequer o reconheceram. Foi também assim com Churchil e DeGaulle. Depois de salvarem a Inglaterra e a França das garras totalitárias de Hitler, perderam as respetivas eleições nos seus países. E o mais certo é que venham agora a perder as estátuas ou as referências na História, pela perseguição do extremismo dito intelectual de esquerda que procura no escarafunchar do passado uma forma de reescrever a verdade. A sua verdade. 

Por isso que se cuidem aqueles que têm afã de protagonismo. Que querem reservar um lugar na história da sua terra. Podem chamar a comunicação social amiga, podem por mil vezes querer impor uma narrativa enviesada dos factos para sua glorificação. Até podem querer uma estátua. Podem recolher e arrebanhar uma turba de fanáticos apoiantes. Podem escrever, buscar homens, mulheres, jovens e crianças. Podem dar música. Dar alimento narrativo. Repeti-lo até à exaustão. Mas nunca se esqueçam. As estátuas de hoje também são para serem derrubadas amanhã.

Emanuel Gomes escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas