Crónica de uma ida a Lisboa

Fui à capital do antigo império colonial, passar a tarde na sala D. Luís I no paço da Ajuda. Como não pude ir de caleche ou liteira desembolsei 600 euros à nossa prestimosa transportadora aérea. Vilipendiamo-la, mas é nela que sentimos segurança e onde os fortalhaços de verbo e insulto ficam caladinhos na aproximação à pista Ronaldo.

Lisboa estava a arder febril com focos de Covid e havia mais 10 infectados em Massamá. Não sei porquê, tenho um trauma no bolso com este sítio. Todo o cuidado era pouco.

Não me importei com as camisas ou as peúgas, fundamental era a estratégia para desarmar o inimigo, a máscara FFP2 porque as cuecas de senhora da Exposição alemã oferecidas não serviam para a guerra e o milagroso álcool gel que não pude levar. Tiradas as botas para espreitar armas dissimuladas ou drogas com chulé e já a bordo, uma tripulante com voz afectada e discurso estereotipado disse-me que como ia numa saída de emergência não podia adormecer. Eram sete da tarde e não tinha sono, até porque o meu pavor de voar não me deixa distrair de pilotar. Lá fiquei vigilante a zelar pela emergência e de olho no bicho pelas esquinas. Nos lavabos, os 20 segundos de sabão da praxe, antes e depois da micção, e o papel para abrir a porta, não fosse o diabo tecê-las. Lembrei-me da senhora da DGS em torno da garrafa de água. Já no solo, um cenário desolador de aviões parqueados. Na gare poucas almas e até o espaço deprimente de fumadores estava fechado. A cidade meio moribunda. A malta nas ruas não parecia perturbada com os focos dos subúrbios e deambulava alegremente sem máscara. No bairro Alto, quase deserto, bebia-se sem protecção ou distanciamento.

O tipo que me serviu o jantar ostentava  viseira sem máscara enquanto manejava o prato e a garrafa de vinho. Soaram logo os alarmes de que o bicharoco podia estar ali. Temi pela vida mas a fome falou mais alto. Não sem antes sacar do gel comprado na farmácia do aeroporto e besuntar as mãos com a satisfação sorridente de quem matou o estupor do bandido. Até senti aquele gostinho orgulhoso e imbecil das tiradas dos políticos a “atacar o inimigo”.

Na volta, uma fila de mascarados sem distanciamento serpenteava um aeroporto vazio ao longo de mais de um quilómetro, aguardando o controlo de segurança.

Os funcionários descartavam culpas e até filmavam a cena. Ninguém era responsável num espaço sempre em remodelação. Parece que o desenvolvimento humano se mede pela obra, que alimenta interesses, sem respeito pelo bem-estar comum ou a elevação da qualidade de vida. Desta vez não tirei as botas e lá trouxe descontraidamente o contrabando.

A bordo, a fulana que me ladeava, coincidentemente na saída de emergência, tossia a espaços.

O pânico invadiu-me. Depois dos cuidados que tivera ia ser conquistado pelo inimigo a hora e meia de distância do fim da guerra. Implorei às divindades e acalmei-me. Fiz a viagem contorcido no assento até ganhar um torcicolo.

As 72 horas de jornada não o exigiam, mas à chegada, tal qual o tal que, voluntariamente, se ofereceu para sofrer a morte e para sossegar a nova hipocondria familiar, entreguei-me espontaneamente às duras penas do cativeiro e do teste. No balcão do cadafalso mediram-me a temperatura e segui para o hotel. Tudo com profissionalismo e sem quaisquer reparos. Ao contrário do que sugeria a maledicência, o teste não demorou meia hora nem a zaragatoa chegou aos miolos.

Chegado a casa, recebo mensagem de alguém que pedia encarecidamente ajuda com alimentos porque tinha dois filhos e a família ficara sem rendimentos. Apunhalado pelo essencial, joguei fora a máscara.

Hugo Amaro escreve

ao sábado, de 4 em 4 semanas