Afinal, quem é que manda?

Enquanto leio meia dúzia de artigos sobre a passagem de Antonoaldo Neves pela Assembleia da República, por estes dias, rio-me. Rio-me para não chorar.

O dito “homem-forte” da TAP brindou-nos, uma vez mais, com excecionais declarações, desta vez, pedindo união nacional em torno da salvação da transportadora que gere. Aquela que é detida, em 50%, pelo Estado Português, mas cujo papel ainda ninguém percebeu a modo.

Estado, esse, que injeta milhões de euros mas que manda pouco, qual passagem entre os pingos da chuva. Estado, esse, que, dizem, nada impõe a tempo e ainda consegue trazer a público conflitos com os outros acionistas, mostrando à luz do dia que há instabilidade na gestão, numa luta político-partidária que chega até ao PS. E isto explica muita coisa.

Afinal, quem é que manda?

Antonoaldo disse-nos, com pujança, que o futuro da TAP vai ser diferente do passado. Ninguém tem dúvidas disso? Eu tenho.

Acrescentou, ainda, que a TAP nunca quis desconsiderar nenhuma região do país e que os números que mostramos evidenciam a consideração que temos por todas as regiões do País nos últimos anos. E estas declarações também explicam muita coisa.

Talvez, coloquem a nu, a existência de miopia quando analisa os tarifários praticados para com as ilhas da Madeira e do Porto Santo. Ou os cancelamentos de voos. Ou as esquisitices do costume. Talvez nos lembrem um incómodo que Antonoaldo demonstra já desde a altura em que veio à Assembleia Legislativa da Madeira, a uma audição, onde pediu que os nossos deputados se retratassem, quando, na verdade, era a TAP que tinha de se retratar e de mudar o tratamento que tem para com a nossa Região Autónoma. A verdade dói, não é Antonoaldo?

Antonoaldo, esse homem forte, em plena audição na Assembleia da República, pediu desculpa, mas isso não nos chega. Não nos chega a nós, nem chegará ao País, que não pode deixar que os milhões agora injetados representem um cheque em branco. Já o havia dito o nosso Presidente, Miguel Albuquerque.

Antonoaldo, cheio de si, afirmou que a Comissão Europeia podia ter-nos dado um caminho diferente, mais atrativo. Dói, não dói? Também nos doeu. Também para a Madeira, a TAP podia ter concedido o tal caminho diferente, mais atrativo!

Mas Antonoaldo, com razão, reiterou, igualmente, que não aceita que a TAP seja discriminada.

Afinal, quem é que manda na TAP?

Que papel tem o Estado? Antonoaldo representa que interesse?

Decidam-se!

Da nossa parte, Antonoaldo, é o seguinte:

Nós não aceitamos que a Região Autónoma da Madeira seja discriminada. Nem, tão pouco, usada como bode expiatório para a salvação da TAP. Precisamos de uma parceria com enfoque na retoma de rotas e na redução do tarifário, que tenha como base a noção e a missão de coesão territorial.

Dispensamos as desculpas, preferimos a ação. Se o futuro vai ser diferente do passado, então está nas mãos da TAP e, portanto, também do Estado, uma mudança de paradigma na relação com a Madeira e com o Porto Santo e a adoção de uma filosofia que privilegie a retoma da indústria turística nacional e, mormente, do desenvolvimento económico do país.

É chegada a hora.

Afinal, quem é que manda?