Grafites e passwords

Os acontecimentos mais recentes relacionados com as manifestações de cariz antirracista e as subsequentes vandalizações de monumentos espalhados pelo mundo deixaram-me significativamente preocupado com a vulnerabilidade das nossas democracias. Esta turba de bárbaros ao perpetrar estes actos imundos e fanáticos não está senão a tentar apagar uma parte da história e do passado colectivo de várias nações, impondo assim uma verdade distorcida e programática.

Em Portugal, estas manifestações visaram sobretudo criar um facto político e aludir a um certo racismo luso, que na minha opinião não existe, mas do qual, alguém, mais à esquerda e mais extremista, até pode conseguir alguma radicalização e proveitos políticos directos ou indirectos. Claro que em Portugal também fizeram o favor de “grafitar” impropérios em estátuas. Desta vez a vítima da ignorância e do ressentimento foi o Padre António Vieira, com acusações graves e injustas, mas que servem a causa, refazer uma história que não convém. Se calhar, como noutros tempos de má memória, como jesuíta e pensador, ainda que morto, Vieira é ainda uma ameaça ao pensamento único e redutor de uma esquerda medíocre.

O método é muito simples e também eficaz, numa primeira abordagem, descontextualizam a personagem da sua época. De seguida e deliberadamente interpretam os seus actos, a sua obra, as suas crenças ou até a sua vida privada à luz dos nossos dias e dos actuais preceitos sociais e humanos. Fazer isto, e peço desculpa aos meus antepassados pela comparação, é exactamente o mesmo do que uma “influencer” da moda criticar aspectos da indumentária Paleolítica e diabolizar a utilização de peles de aninais “queriduchos” no vestuário dos Neandertais… e claro, chamá-los assassinos… mas eles só tinham frio.

Infelizmente, os e as “influencers” não andam só pelas redes sociais conhecidas a vender inutilidades. Em Portugal, nos media e congéneres, estes seres crescem como cogumelos e a cada dia que passa, ameaçam a nossa democracia e até a nossa história. Refiro-me a umas personagens dissimuladas e perigosas, e que não testam nem aconselham cremes ou “trapos”, mas infelizmente e com algum sucesso, impingem unguentos ideológicos duvidosos e fatiotas facciosas. Para ajudar à festa, além destes influenciadores ideológicos, motivados e bem pagos, temos um Primeiro-Ministro que mais parece um fervoroso “youtuber” a fazer “unboxing” de um país avariado, de um país que paga para aparecer, de um país virtual que só existe nos jornais amigos e nos canais de televisão demasiadamente gratos para serem isentos. 

Mas como se já não bastasse ter “influencers” ideológicos por tudo o que é canal (desculpem, canto) e ter um Primeiro-Ministro “youtuber” vendedor de banha de cobra, temos também um Presidente da República que mais parece uma “Instagramer” histérica que passa o dia a publicar cada momento da sua existência (com máscara, claro) e a fazer “likes” no canal manhoso do Governo. No meio desta desgraça colectiva que nos assola e que infelizmente também parece que nos consola, ainda temos uma oposição que até tem um “smartphone”, mas não tem internet. Ainda não percebi se esgotou os dados ou se não consegue aceder ao “wi-fi”. Por favor, alguém sabe a “password”? Penso que ainda é SOCIALDEMOCRACIA… com maiúsculas.