Gozar com quem trabalha!

Assistir àqueles minuto e 3 segundos em que o novo ministro das Finanças arruma com as pretensões da Madeira, após pergunta da deputada Sara Madruga da Costa, é um exercício penoso. Desde logo pelo fútil exercício de um Ministro que é promovido de Secretário de Estado, estar a justificar a falta de solidariedade do seu governo para com uma parcela do território nacional, no início daquela que é considerada "a mãe de todas as crises". Seria deprimente, se não fosse afrontoso. Depois pelo ar blasé, completamente desimportado, com que argumenta. Dizer que suspendeu para lá uns artigos (já agora o 16º e 40º, se não se incomodar muito) já é um frete, mas referir-se à lei que arquitecta a relação financeira entre o Estado e as Regiões Autónomas como "lei de finanças locais" é um deslize de linguagem que terá atrás de si uma visão municipalista dos arquipélagos atlânticos. Esta coisa da Autonomia é um exotismo, sem dúvida. "os gajos querem é gastar o nosso dinheiro", terá pensado o Ministro, esquecendo mais uma vez que não há obrigações para Estado Central em causa.

Pior. Refere que o empréstimo está autorizado já contemplando uma margem que possibilita a que a Madeira pague as prestações do PAEF ao Estado. Meu Deus, tão bonzinho o nosso leão. Até nos permite que nos endividemos, obrigação a ser liquidada com o nosso dinheiro, para que possamos pagar o empréstimo ao à República, que também é a nossa. Será que o que o Sr. Ministro quis dizer, é que se não fosse estas prestações do PAEF vencerem-se no próximo ano, não haveria autorização para o endividamento?

E sem o aval do Estado, algo que pouparia à Madeira, que é como quem diz "a Portugal", pois ainda fazemos parte de, muito dinheiro.

Há quem queira colocar na boca de Miguel Albuquerque a afirmação de quem dispensava o aval do Governo central para esta operação. Não é verdade. O que o presidente do Governo Regional disse é que não compreendia a falta de resposta ao pedido de autorização para contrair o empréstimo, já que iria ser pago com o nosso dinheiro e nem carecia de aval do Estado. E é verdade. As entidades financeiras emprestam o dinheiro mesmo sem a garantia do Estado, dada a nossa credibilidade na banca. Mas tendo o aval, ganhávamos todos. Porém a política de terra queimada socialista, com o aplauso entusiasmado e desesperado do PS local, já a fazer contas à descida de popularidade acentuada, e aos indícios de quebra nas intenções de voto, atinge o seu zênite com um conjunto de perguntas desconchavadas que o grupo parlamentar socialista na Assembleia da República enviou ao parlamento regional, com o intuito claro de atrasar a entrada em vigor dos diplomas que permitem desafogar a tesouraria regional, insuficiente para apagar tantos fogos referentes à crise COVID. Chegam a perguntar se um empréstimo previsto para fazer o roll-over da dívida Regional, inscrito quer no orçamento regional, quer do Estado, não é suficiente para acudir à pandemia! Isto é gozar com quem trabalha.

Tiago Miguel Freitas escreve

à quarta-feira, de 2 em 2 semanas