A Política (em) Layoff

Para muitos, os últimos dois meses significaram um enfoque especial na família, na saúde e na introspeção, algo que implica certamente uma mudança interior significativa. Não se inicia esta nova fase exatamente da mesma forma como se vivia no pré-Covid19. Após esta primeira etapa de combate coletivo à pandemia, começamos agora lentamente a proceder ao desconfinamento, descobrindo a alegria nas atividades que dantes eram tão banais.

Mas há outras pessoas que se deparam com mudanças bem maiores e mais bruscas. Refiro-me claramente aqueles que sofreram consequências de saúde diretas ou indiretas da pandemia e aos profissionais de saúde que estão na linha da frente desta luta. O peso da Covid-19 é imensuravelmente maior nestes nossos concidadãos.

Também estão perante mudanças colossais os empresários, os gestores e os trabalhadores, cujo esforço notável nesta adaptação ao novo normal nunca é demais de salientar. Adaptam-se não só às novas regras de saúde pública como também à mudança radical no mercado em que operam. Conseguir responder às alterações de preferências e aos novos hábitos dos consumidores será fulcral. Entregas ao domicílio, desmaterialização de escritórios de serviços, formação e reuniões online, são alguns exemplos de soluções a longo-prazo para garantir essa sobrevivência.

Contudo, nem tudo é desmaterializável, como se pode constatar pelo setor do turismo, um dos mais negativamente afetados pelas medidas de confinamento Covid-19. Logo, não se compreende, como é que o atual regime de layoff simplificado tenha um prazo curto para término, também para as empresas de alta dependência dos fluxos turísticos, apesar de continuar a haver a limitação generalizada às viagens, corretamente coordenada entre os Estados-membros da UE.

O Presidente da República chamou a atenção do governo central para a necessidade de prorrogar a medida vital para além de 30 junho, para evitar ainda mais desemprego. Nas regiões mais especializadas nas atividades turísticas será essencial essa prorrogação que ainda não tem luz verde do governo central. Calejados das promessas ocas, os empresários precisam de ver preto no branco essa prorrogação.

Também a política experimenta o modo “layoff” nestes tempos – vemos parlamentos a funcionar a meio gás, por exemplo. O enfoque na gestão da crise colocou de lado muitos dos aspetos mais triviais do combate político. Seria por isso interessante, que a acompanhar o desconfinamento económico e social, também a classe política não fizesse um mero retomar do modus operandi pre-Covid19. Tem que trazer inovação ao debate público, quiçá algo despoletado pelo confinamento, evitando “receitas” políticas do passado, que ao fim do dia dizem muito pouco a quem mais tem sofrido com a pandemia, seja em termos de saúde, seja em termos económicos.

Útil seria, por exemplo, ouvir os partidos a debater (via Zoom, Skype ou auditórios sobredimensionados para garantir normas de segurança) o reposicionamento português na economia europeia, particularmente tendo em conta a mais recente proposta franco-alemã que abre o caminho para uma forma de mutualização de dívida, rumo ao necessário completar da união monetária europeia. As oportunidades não batem duas vezes à porta.