A escolha é política

Numa altura em que se pede, com o estóico punho no peito, a unidade de todos para vencer a virose que assusta meio mundo, a discussão em volta do rumo parece ser uma guerra. Insultos e assassinato de reputação são as armas. É, pelo menos, essa a sensação com que fico ao ver e ler os serviços noticiosos, de comentários ou mesmo os debates encomendados. Parece que há apenas duas verdades, absolutas irreconciliáveis: ficar em casa, ou ir para a pândega. E todos reivindicam para si a razão da ciência.

A verdade é que nada disto é ciência. A ciência não é impermeável a propostas discordantes para o mesmo cenário.

No caso deste vírus, a discussão parece centrar-se numa única dicotomia: os que defendem que a melhor opção é escondermo-nos todos em casa até que apareça uma cura ou vacina, leve o tempo que levar, e os que defendem que ficar em casa não serve de nada. A meu ver ambos os lados desprezam todas áreas cinzentas entaladas entre eles. Será que essas inconciliáveis facções se baseiam mesmo em factos científicos, não em questões políticas? Ambos os lados se apoiam em modelos estatísticos. Ora, modelos estatísticos não são factos científicos.

Quando notícias do vírus nos começaram a chegar da China, como uma trágica e ominosa promessa, os vários grupos de cientistas começaram a produzir os tais modelos. Estes modelos são projecções estatísticas, sempre limitadas na sua natureza preditiva pela necessária selecção dos factores a ter em conta. Além de ser impossível ter todos os factores em conta, cada estatístico escolhe em que factores basear o seu modelo e que importância dar a cada um deles. Depois surge a dificuldade que advém do desenrolar da crise, com novos números e novas nuances a estragar as previsões anteriores. São incógnitas atrás de incógnitas e variações atrás de variações.

Quando o medo se instalou, os governos olharam para os modelos com os piores cenários e temeram a opinião pública. Outros escolheram olhar para outros modelos e deixaram a epidemia seguir o seu curso, com maiores ou menores limitações, com a desculpa de estimular a imunidade de grupo e assim precaver para os surtos subsequentes. Ambas as estratégias têm, assim, fundo científico. O isolamento evita que a infecção se espalhe à vontade, é verdade. Que o isolamento abre a porta a outras doenças (inclusivamente psiquiátricas) e deixa os isolados desprotegidos para um surto subsequente, também é verdade. Mas a escolha é política.

Uns quiseram dar a ideia ao eleitorado de que agem, mesmo que sacrificando valores das suas sociedades. Outros preferiram mexer menos nos valores, sob a desculpa de prevenir o futuro. Qual das duas estratégias mata mais, fazendo as contas também às eventuais mortes colaterais? Não são os modelos que nos vão revelar, mas os factos consumados e quantificados lá mais para a frente. Até lá deixemos de fazer da ciência arma de arremesso, respeitem as opiniões uns dos outros, e atribuam as consequências da política... à política.