Façam o que eu vos digo... não façam o que eu faço!

Há discursos políticos que surpreendem pelas suas extraordinárias capacidades. Há os que surpreendem pela sua eloquência e conteúdo irrepreensível, e outros tantos, que pela artimanha e pela incoerência, têm a capacidade de o fazer, sem dispensar a ostentação do mais dissimulado ar de "credibilidade".

Durante a passada semana, tive a oportunidade de apresentar, no Parlamento Regional, uma recomendação ao Governo Regional que visava a implementação de medidas concretas para proteger, reforçar e impulsionar a produção agrícola regional e, acima de tudo, garantir o escoamento dos produtos regionais.

Em perfeita sintonia com o que tem sido invocado pelo Governo Regional em spots televisivos que apela (e bem) ao consumo doméstico de produtos regionais. É efetivamente importante que os madeirenses consumam "o que é nosso" nas suas habitações, apoiando os "nossos" produtores ao invés de se manter os interesses na importação de produtos agrícolas do exterior. 

Mas é igualmente importante que a administração pública regional constitua um exemplo na adoção e implementação destas medidas.

É da maior incoerência que se invista dinheiro público em pertinentes campanhas de sensibilização ao consumo doméstico do produto regional, condenando em seguida esta aposta, quando um Governante afirma publicamente que não o fará nas cantinas ou refeitórios públicos de estabelecimentos dependentes de entidades públicas porque "utilizando os produtos regionais aumentaria 30% do preço de compra dos produtos".

A incoerência nesta matéria estende-se também ao Parlamento Regional, onde a dupla PSD/CDS acabou por chumbar a proposta do JPP que previa a priorização da aquisição de produtos alimentares regionais pelas entidades públicas, para os refeitórios de hospitais, lares de terceira idade, centros de convívio, escolas, entre outras. Entendia o PSD que os agricultores já estão "bem servidos" e que não há produtos regionais disponíveis para compra no mercado regional (contradizendo, em pleno, o que é defendido pelo "seu" Governo Regional). A este "jogo de incoerências" aliou-se o CDS, levando a "taça" para casa, quando chumba este mesmo diploma, depois de anos a ostentar a bandeira dos produtos regionais. Ainda há uns meses ouvíamos o líder do CDS-PP Madeira, Rui Barreto, a desafiar o Governo Regional para aprovar uma proposta que consagrava um regime específico para que as entidades públicas regionais, hospitais, escolas e lares, entre outras, fossem "obrigadas a incluir produtos da Região quando celebram contratos públicos para o fornecimento de produtos agrícolas destinados à confeção de refeições".

A verdade é que o impacto pandémico da COVID-19 foi particularmente agravado no setor primário, o qual foi duramente atingido pelo encerramento de unidades hoteleiras e da restauração regional.

A verdade é que existe uma população agrícola regional com cerca de 40 mil pessoas que depende de um escoamento rápido e eficaz dos seus produtos e que dispensa estas incoerências e a demagogia barata de uma maioria parlamentar inconsequente e completamente desgovernada.

Porque apontar os problemas alheios é fácil! Difícil é mudar o comportamento parlamentar para aceitar soluções trazidas pela oposição.

Para a atual maioria, difícil tem sido adquirir uma postura correta, que assuma as suas responsabilidades e não se deixe contaminar pela necessidade de conseguir um ganho político imediato.

Difícil é defender o que acreditamos, ao invés de nos cingirmos ao silêncio cúmplice daqueles que, outrora, teatralizavam ações políticas.

Porque para este Governo, o que é mesmo difícil... é ser coerente!