Quase 500 anos

Desde 2005 participo na procissão do 1 de maio. Desde antes das celebrações do dia do trabalhador, celebra -se, no Funchal, o dia de São Tiago Menor. No ido ano de 1521, quando a Peste dizimava, um menino, João, sorteou o seu nome como Padroeiro da Cidade do Funchal. Em 1523, prometeu-se fazer uma procissão anual em sua homenage, entre a Sé e a Igreja de Santa Maria Maior. Nos últimos anos, entre a Capela do Corpo Santo e a Igreja do Socorro. Em 2019, nos 600 anos do Achamento da Madeira, foi feita como originalmente: da Sé até à Igreja do Socorro, como sinal de comunhão com os nossos antepassados juntando elementos históricos e culturais e a consciência da atualização deste mesmo voto para os nossos dias.

Este ano não houve. 499 anos depois - volta à “Peste”. Também enquanto esta subsistiu, não houve procissão, o voto foi cumprido seguindo as celebrações pelos meios de comunicação.

Em tempos, os governantes depuseram aos pés de São Tiago Menor os bastões (símbolos de poder), esgotados os recursos existentes à época. Em 2020, a resposta ao nível regional, não permitiu o esgotamento dos recursos (procuram-se, encontram-se, investiu-se e implementou-se), para debelar a “Peste” do ponto de vista da saúde e económico.

Aos confinados foi concedido tempo para pensar (na linha da frente outros agiam para debelar a questão de saúde, com resultados assinaláveis e sobretudo louváveis). No desconfinamento gradual, é tempo de ponderar: pretende-se o mero regresso ou a evolução?

Pretende-se continuar numa economia de crescimento de números, do PIB ou discernir, setores que devem crescer (setores públicos críticos, energias limpas, educação, saúde, etc) e que os que devem abrandar (petróleo, especulação, etc.). E estruturar economia com enfase na justiça social, para que todos disponham de um mínimo, acesso a serviços públicos, sendo a renda, o lucro, justamente tributados? Urge repensar o financiamento da Segurança Social e o impacto a globalização.

Testados os novos meios de trabalho disponíveis, reconsiderar as deslocações, horários (reduzidos e compartilhados), valorizando, por exemplo, os cuidadores, conforme dita a demografia atual (a região foi peregrina no reconhecimento do cuidador informal), valorizando-se o tempo em família, o fomento das atividades físicas saudáveis e culturais. Importaria a valorização da agricultura, assente na conservação da biodiversidade, sustentável e baseada em produção local (com condições de emprego e salário justas), bem como a redução do consumo (supérfluo e desenfreado) bem como das viagens, sendo estas sustentáveis e satisfatórias face ao objetivo.

Urgente repensar da dívida, especialmente dos países do Sul (e das instituições financeiras internacionais) – são imprevisíveis as consequências na UE face à decisão do Tribunal Constitucional alemão -Karlsruhe, que questiona a "proporcionalidade" do programa de compra da dívida pública em 2015 pelo BCE e que poderá provocar cisão pelo aproveitamento de partidos e os governos populistas; e dos trabalhadores e donos de pequenos negócios (na dimensão nacional), sendo de justiça que as dívidas regionais fossem também devidamente renegociadas.

“Todo progresso acontece fora da zona de conforto.” (Michael John Bobak)

É oportuno tirar ilações nesta situação (não debelada, havendo uma diversidade de comportamentos dispares - até disparatados- no panorama mundial) e dar um salto evolucional.

“O progresso acontece quando líderes corajosos e hábeis agarram a oportunidade para mudar as coisas para melhor” (Harry Truman).