Assim, vale a pena?

Eu, fã do desporto-rei, anseio o regresso dos campeonatos. Confesso. Já tenho saudades dos fins-de-semana da bola. Do meu Marítimo, da Liga Portuguesa, da espetacularidade da Liga Inglesa, das magias do Ronaldo e do Messi, da irreverência do ‘Jota-Jota’ no Flamengo, e por aí fora. Das idas ao estádio, dos cânticos e das cantigas de maldizer, dos VARistas, comentaristas e outros istas. Das discussões à volta das ligas Record, Fantasy ou Realfvr com o pessoal. E saudades imensas das peladinhas da semana. Enfim, de tudo aquilo que gravita à volta da redondinha. Mas os tempos não estão para brincadeiras e o novel coronavírus colocou um hiato em tudo isto, empurrando quase todas as competições para outras núpcias. Razões imperativas de segurança e saúde públicas assim o obrigaram. 

Cancelaram todas as competições de todas as divisões, dos regionais aos distritais, da segunda liga ao campeonato de Portugal. Centenas de clubes e milhares de atletas, muitos deles profissionais, viram a sua época terminada. Abruptamente, é certo. Mas terminada. A razão essencial foi o momento pandémico e a consequente falta de condições para que tais competições fossem retomadas. Todas menos a Primeira Liga do futebol profissional em Portugal.

Não se iludam. A razão para não fechar portas já é uma, e uma só: com as receitas em queda a pique (bilheteiras, merchandising, das competições e acima de tudo das receitas televisivas das quais dependem a maioria das SAD e SDUQ em Portugal), em causa está a sobrevivência e os cenários não são animadores. Os números em causa atingem, no mínimo, os 150 milhões de euros, sensivelmente um terço do valor gerado numa época desportiva. Em risco estão os empregos de milhares de pessoas que trabalham direta ou indiretamente no futebol. O cenário é negro. E só assim se compreende que, em contranatura face a todo o cenário desportivo nacional, se prossiga com a intenção, quase concretizada, de levar a liga portuguesa até ao seu términus, custo o que custar.

As medidas para a retoma futebolística têm tanto de impressionante como de inacreditável. Desde logo a obrigatoriedade de todos os agentes desportivos, incluindo os jogadores, equipas técnicas e árbitros, assumirem o risco existente de infeção e a responsabilidade de todas as eventuais consequências clínicas da doença e do risco para a Saúde Pública, através de um Código de Conduta assinado por todos os envolvidos. Nele constará, desde logo, a obrigatoriedade do recolhimento domiciliário desde a data do início da retoma dos treinos para as competições oficiais e até ao final da temporada de todas as competições. Por outras palavras, enquanto isto durar, os jogadores só podem se deslocar entre domicílio-clube/competição-domicílio, sendo apenas permitidos contactos sociais com coabitantes e membros do clube. E por esta razão estes últimos ficam igualmente obrigados ao dever de recolhimento domiciliário imposto aos atletas, o que implica que a mulher de um jogador, ou membro do clube, ou do árbitro, que trabalhe deixa de o poder fazer durante este período. Depois ainda existem as questões de controlo, da testagem regular, do isolamento em casos positivos, da vigilância dos contactos próximos, que só mesmo lendo para acreditar.

Pormenor: tudo isto sem qualquer público. É proibida a presença de espectadores no interior dos estádios, até ao final da temporada. No exterior e imediações dos estádios, nos hotéis, centros de treino e nas vias públicas circundantes, a circulação de pessoas é limitada a 10, cabendo às forças e serviços de segurança assegurar o cumprimento destas determinações. Assim, o futebol em tempo de crise significa futebol sem adeptos. Afinal é o negócio que está em causa.

Mais, a competição desenrola-se em estádios selecionados, sendo certo que, pelo menos para Porto, Benfica, Sporting, Braga e Guimarães é garantido que jogarão nos seus estádios, enquanto que o resto andará com a casa atrás das costas, coisa que, pelo menos o Marítimo não aceita. Facilmente daqui se depreenderá que nunca haverá igualdade no tratamento ou a tão afamada ‘justiça desportiva’, nem que seja porque todas estas medidas excecionais desvirtuam necessariamente um campeonato.

Uma competição com jogadores esterilizados e receosos, sem público e sem abrigo. Mas com a receita a pingar na conta dos clubes, espera-se. Compreendendo isto tudo, fica a pergunta: assim, vale a pena?