Retratos dum tempo distópico

Nesta atmosfera invulgar em que estamos mergulhados por força da covid-19 e por imposição ditatorial do #ficaremcasa, surgem-nos imagens dignas de estranhos retratos. Imagens insólitas que nos fazem recordar um episódio convictamente narrado pelo agora falecido Manuel Nicolau, ainda nos anos oitenta. Segundo contava, vinha ele do Funchal, cansado, ao lusco-fusco da alvorada, depois duma noitada na redação fotográfica, quando avistou, o que lhe pareceu ser, um objeto voador não identificado (ovni), nos céus de Machico. Era o tempo dessas crenças. Sacou da máquina, tirou a foto e mostrou a história na edição impressa dum dia seguinte. Poucos acreditaram. No céu retratado, apenas se distinguia algo por entre as nuvens que ninguém se atrevia a identificar. Mas falou-se muito da ocorrência. Os tempos impunham muita imaginação para dar conta de coisas estranhas que poderiam vir a acontecer. E vieram. Hoje vivemos o futuro desses tempos especulativos.  Agora retratamos com nitidez imagens verdadeiras da mais pura incredulidade.

Humanos deambulando, com olhos inexpressivos no topo da máscara, na demanda de comida ou de um café, ou simplesmente para respirar o ar do mundo exterior, mesmo que suspeito. Ainda aterrorizados pela ditadura do medo da morte diariamente anunciada, em difusão oficiosa.

Um velho político percorrendo sozinho as ruas da cidade, num meio-carro de carga a abarrotar de cravos vermelhos, apinhado de colunas de som que difundem o Grândola Vila Morena, do Zeca Afonso, e outras lengalengas ditas rebeldes, num celebrar obsessivo do 25 de Abril. Ao que fica sempre a interrogação. Será isto apenas para celebrar Abril ou será antes para que o povo não se esqueça do velho revolucionário a quem todos aqui, no seu entender, devem a liberdade e a democracia?

Uma central sindical, em plena pandemia, nesta Europa democrática, teima em desfilar um cortejo de delegados, no primeiro de maio, todos em simetria, de bandeirinha, num ritual subjugado ao internacional-comunismo, há muito em putrefação, salvo na Coreia do Norte.

Um município, com os seus dois presidentes e três vereadores, a celebrar a solo o novo dia do concelho, a oito de maio, via internet, ainda no calor da polémica alteração da data que enfureceu a maioria da população e que teve como ponto alto do programa um desfile de carros e ambulâncias do corpo de bombeiros locais, com sirenes ligadas, pelo cair da noite, estremecendo toda a cidade, ficando os munícipes assim a saber, pelo susto, que sim, era este, irremediavelmente, o novo dia do seu feriado.

Um padre, numa furgoneta, com o andor de Nossa Senhora de Fátima em cima da carroçaria, à frente dum outro meio-carro, ou talvez o mesmo, novamente carregado de colunas de som, rezando à virgem, com ecos em todo o vale, ao anoitecer deste doze de maio e dos três pastorinhos. Lá longe, onde tudo começou, um santuário vazio. Aqui mesmo, em ambiente distópico, sem a presença dos fiéis, tudo se celebrou.

E, no dia em que a alegria voltar, quando pudermos voltar a rir, o que não acontecerá para já com as tímidas medidas de desconfinamento que estão anunciadas para estes próximos tempos, vamos olhar para estes quadros bizarros, que já não vieram a tempo de serem captados pela objetiva do Manuel Nicolau e, de mente nestes retratos de 2020, vamo-nos interrogar: será que isto aconteceu mesmo? Será que foi verdade? Será tudo isto real? Será então que aquilo era mesmo um OVNI?