Totus Tuus, Oh Maria!

O ano de 1981 foi uma data “terribilis” para o Papa João Paulo II, ele que conhecera muitos outros anos semelhantes na sua vida de cristão e democrata na desobediente Polónia, país atacado fortemente pelo vírus do comunismo ateu, vizinho inquieto da prepotente Rússia, que temia ver um Papa em Roma a gritar alto para todo o mundo, a miséria moral, os horrores da grande guerra, a destruição de sinagogas, a morte dos seus amigos de infância de raça judia, potência mundial que ameaçava com uma guerra a Europa e o mundo. O mal estava feito, como cortar a cabeça a um Pontífice que entusiasmava o mundo com a   sua palavra, juventude, alegria, que tinha a audácia dos profetas da Bíblia, defensor acérrimo dos direitos do homem que conquistava o coração de todos os homens e mulheres de boa vontade, com uma luta sem trégua e de uma forma pacífica e evangélica?

Nos inícios do mês de maio, o Papa recebeu a notícia que o seu grande amigo, o cardeal Wyszynski da Polónia jazia no leito com uma doença grave e apressou-se a enviar o seu secretário a visitá-lo e levar a sua bênção; em Roma, estava prevista para 13 de maio uma manifestação a favor do aborto, promovida pelos partidos laicos e de esquerda. Alguns manifestantes chegaram a penetrar na Praça de São Pedro e, sob a janela do Papa, agitavam bandeiras, gritando slogans ofensivos e insultando João Paulo II.

A 13 de maio de 1981, quarta feira, era dia de Audiência geral na Praça de São Pedro.

Como de costume, o carro branco do Papa percorria a Praça em vários sentidos entre alas de peregrinos e visitantes, os pais colocavam as crianças aos ombros para verem o Papa que pára junto deles, os abençoa e, por vezes os beija e toma nos braços. Por volta das 17h17 quando o carro fazia o segundo giro, um jovem de pele cinzenta corre entre a multidão, chega à primeira fila, alça a mão direita com uma pistola e dispara duas vezes contra a pessoa do Papa. Com o ruído, as pombas da Praça de São Pedro levam voo de repente, e o Papa exclama: “Madonna mia, Madonna mia, minha Nossa Senhora, minha Nossa Senhora”. O secretário Mons. Estanislau pergunta,” Onde foi? no ventre, diz o Papa”; Está a doer? Sim está a doer”. Em breve tempo chegou uma ambulância, o Papa perdeu as forças e começou a inclinar-se. O secretário segurou o Papa pelas costas, alguns peregrinos exclamam gritando: “Atiraram ao Papa”. Ao chegar ao pátio do Belvedere deitaram-no no chão e começou a derramar muito sangue da ferida. Levaram o Papa para a Clínica Gemelli com o médico Dr.  Buzzonnetti, correndo a grande velocidade, durante o trajeto o Papa estava consciente e orava, ao entrar no hospital perdeu os sentidos. A notícia foi logo conhecida em Roma e no mundo, nos países da Europa de Leste o atentado foi esquecido. No Colégio Português o telefone recebia perguntas de muitas partes, Brasil, Angola, Portugal etc. À noite a Praça de São Pedro estava cheia de gente a rezar o terço a Nossa Senhora de Fátima, oração presidida pelo Cardeal secretário de Estado. A rádio Vaticano dava uma esperança de vida ao Pontífice, a realidade era, porém, outra, o secretário do Papa que estava junto dos médicos escreveu: “a situação era muito séria, o organismo perdeu muito sangue.” O Doutor Buzzonnetti, porém, estava aterrorizado, chamou o secretário do Papa para administrar a Unção dos enfermos, a pressão diminuía e mal se sentia o coração a bater, a operação demorou quatro horas e vinte minutos, mas correu bem, aparecia um raio de esperança. Quando o Papa saiu da anestesia e tomou consciência perguntou ao secretário: “Recitamos a oração de Completas?” Era já manhã, raiava um novo dia, em Fátima a multidão também rezara pelo Papa. Uma semana após o atentado cantaram um Te Deum de ação de graças no hospital Gemelli.

No mês de julho começou o processo de Alì Agca, o killer profissional turco que durante mais de um mês seguia os passos do Papa. O Pontífice perdoou a Alì e visitou-o na cadeia de Rebibia em Roma, quando saiu do cárcere disse: “As palavras que trocamos são um segredo meu e dele”. Alì beijou a mão direita do Papa, depois apoiou a face nas suas mãos, tendo o Papa tocado com a mão o joelho do assassino.

A mão que tocou o joelho é a mão da misericórdia de Jesus que procura a “ovelha perdida”.