O que nos destrói mais?

Como eu, estão confinados em casa, há já algumas semanas, milhares de portugueses.

Já escrevi que, embora distantes, nunca estivemos tão juntos, nunca fomos tão iguais e nunca, com tão pouco, pudemos fazer tanto pelo mundo. É certo que estamos no mesmo barco, porém uns nuns compartimentos mais confortáveis que outros e essa desigualdade (que não é novidade) tem-se agudizado nos últimos tempos. Quero acreditar que vai ficar tudo bem e que, com uma ou outra moça, vamos conseguir aguentar a viagem.

Na Região Autónoma da Madeira, o Governo Regional implementou uma série de medidas de apoio às famílias e às empresas para atenuar os fortes constrangimentos causados pela pandemia: apoio extraordinário à manutenção dos contratos de trabalho; a Linha Invest RAM 2020 COVID-19 e a Linha de Apoio de Emergência ao Setor das Artes e da Cultura; um regime extraordinário de apoio aos armadores, pescadores e compradores, entre tantas e tantas outras, em diversas áreas, que nos permitiram respirar de alívio.

Mas tão inevitável quanto foi parar a economia para salvaguarda da saúde pública, é o regresso gradual. É certo: temos medo. Temos todas e todos. Trabalhadores, desempregados, patrões, pais, mães, filhos, governantes. Não há super poderes que nos permitam lidar com esta realidade sem dúvidas ou ansiedade. Mas temos a convicção de que não podemos permitir que paire no ar a questão – o que nos destrói mais? O vírus ou o confinamento?

O regresso gradual, talvez mais do que ficar em casa, será a nossa prova de fogo. Sabemos o que pode combater a pandemia (vacina, medicação ou imunidade comunitária), mas sabemos, igualmente, que está nas nossas mãos inverter a paragem económica que, para nosso bem, foi provocada.

A Madeira, felizmente, tem sido um caso de sucesso reconhecido além-mar na resposta à covid-19 mas, não é por isso, que podemos baixar a guarda. Se aos nossos governantes e às nossas autoridades compete a coordenação da abertura, de modo a evitar uma progressão descontrolada do vírus, a todas e todos nós cabe a responsabilidade de alinhar na estratégia inevitável de regresso.

Um grupo de especialistas, da Universidade Nova de Lisboa, no seu trabalho "Salvar Vidas, Salvar a Economia, Preparar o Futuro", defende que se deve reabrir por setor de atividade, usando o teletrabalho, que os espaços públicos devem ter “certificação de boas práticas” e que os grupos mais vulneráveis devem continuar com medidas especiais de proteção. Medidas e intenções, de especialistas de Virologia, de Economia ou de Saúde Pública, que não se coadunam com as soluções de reabertura já elencadas por António Costa e pelo seu executivo. Valha-nos, por isso, a Autonomia e o Governo Regional!

E valha-nos, igualmente, a nossa capacidade e responsabilidade de fazermos parte da solução. Não podemos relaxar, nem tão pouco regressar à normalidade. Aliás, pelas redes sociais viaja uma frase que diz que “não podemos voltar ao normal porque o normal era exatamente o problema. Precisamos voltar melhores!”. E precisamos mesmo. De sermos mais empáticos, menos egoístas, mais humanos, mais conscientes e mais colaborantes.

O regresso gradual não é só tarefa dos nossos governantes. Provavelmente, é mais tarefa nossa do que deles. Disso depende a nossa saúde, a nossa segurança e o pão nosso de cada dia. Será uma aprendizagem para todas e todos – um vaivém de sentimentos, de experiências e uma construção diária. Mas estamos juntos. Mais do que nunca. O barco não parou.