Relatos de um Mayor não-eleito em emergência

“Aquando a visita ao Grupo Folclórico de Santa Rita, e enquanto o bailinho ainda dançava, na cabeça do Mayor não-eleito já estava a ser desenhado o plano de contingência para a Covid-19 apresentado no dia seguinte aos órgãos de comunicação social.”

Assim começa este best seller autárquico reconhecido pelo comité olímpico dos Mayors, ou Academia dos Mayors, ou algo parecido, assim me contaram. Em caso de dúvida é procurar nas notícias. E embora o título do livro à partida possa não suscitar muito interesse ao leitor comum garanto-lhe que vale a pena ler com atenção esta grande obra de ficção.

“Após o lançamento do grande plano, foi tudo uma questão de vender diariamente medidas e programas de apoio que não saíram do cabeçalho. Assim, anunciou-se como primeira medida a entrega gratuita de 50 mil livros à população. Podia não haver comida em cima da mesa mas não faltariam certamente letras para enganar a mente dos munícipes.” Isentar as rendas sociais? Isentar o consumo de água durante todo o estado de emergência? Isso são perguntas que leitor atento faz mas Mayor não-eleito desfaz.

“Anuncia-se que estão a ser estabelecidos contactos com os idosos e com os comerciantes. Pelos nomes pomposos dos programas de apoio, só não enriquecem desmesuradamente após o estado de emergência se não quiserem. São plataformas, sites e campanhas made in Funchal, em que o Comércio está ao Serviço. Viva”.

E como vender de forma mais eficaz o tal programa municipal? Chama-se a televisão e anuncia-se a aquisição de testes Covid-19 para os funcionários da autarquia. E que testes são esses? Qual a validade dos mesmos? Ninguém sabe. Quais os funcionários que serão testados? De que forma se irão realizar os testes? Demasiadas perguntas que ficam sem resposta. Já a notícia de telejornal, ninguém a tira já.

E o que fazer a tanta promessa de entretenimento feita? Nada que não tivesse solução. “Rebente-se 350 mil euros em fogo e nuns lives para o Facebook a ver se o povo não arrebita.” E assim foi, a 25 de abril de 2020, estalaram nos céus da cidade dinheiro dos munícipes, desta feita nem para inglês ver.

Com a trama a adensar-se volta a surgir o fantasma da Frente Mar que ameaça com umas insónias valentes, situação essa descrita de forma soberba nos relatos. “Porque não dizer que o Governo não deixa abrir as praias este ano? Assim não se abrem complexos balneares e justifica-se a falta de receita. Faz-se notícia com o assunto, e na mesma onda aproveita-se o “bicho” e mete-se a Frente Mar, que já estava falida, em lay off.”

1º de Maio. Dia de Santiago Menor. A decorrer ainda o Estado de Emergência, o Mayor não-eleito convoca uma missa em honra do Santo Padroeiro da Cidade. Está tudo descrito ao pormenor. O engodo lançado aos vereadores da oposição, a superioridade que detêm ao assistirem de forma presencial a uma missa quando mais nenhum católico português o podia fazer. O desfile a seis pelas ruas da cidade, completamente proibido no Estado de Emergência foi só mais um pormenor para quem se julga acima da lei.

“Vamos gastar 150 mil euros em computadores e internet para alunos carenciados.” Os computadores afinal só serão para os alunos de 1º ciclo por causa da escola à distância. E só vão chegar depois de acabar a escola em casa. Isso são só pormenores, obviamente.

Até ao final do relato são lançados mais uns concursos e uns campeonatos virtuais, anunciam-se umas viseiras para comerciantes, cujo logotipo deve ocupar certamente metade do campo de visão, e fala-se na cultura, para não dizerem que está esquecida.

As grandes medidas de apoio ficam na prateleira. A isenção de IMI para famílias que perderam rendimento. O apoio às empresas e comerciantes com a suspensão até 31 de dezembro de 2020 de rendas e taxas de esplanada e publicidade. Conceder apoios às empresas e comerciantes que garantam um preço justo na aquisição de máscaras e desinfectante para as mãos. Extinguir finalmente o imposto da derrama.

Nesta Câmara não interessa decretar oficialmente calamidade. Assim o é desde o início da sua governação.