"Assim, mais vale estar fechado"

A forma como a sociedade vai lidar com a presença da covid-19 é uma incerteza estável. Aliás, a mutação dos dados estatísticos das empresas que estudam o comportamento futuro da sociedade é mesmo a única constante nestes tempos de desconfinamento com regras.

Numa semana são 60% os que garantem não recorrer aos centros comerciais, na outra são já 75% aqueles que se sentem seguros a efetuar uma compra nas grandes superfícies. O mesmo se aplica para todos os ramos em que a presença do público é condição imprescindível para a sobrevivência das empresas. Não há verdades absolutas, é um facto. Mas o futuro não se prepara sem esforço capaz de tornar mais apelativas as condições de venda ao público. E, nesse sentido, medidas 'visíveis' de segurança, desinfeção e higiene tornaram-se ainda mais prioritárias.

Sem ajudas públicas, porém, nada feito!

E de nada valem grandes planos de financiamento se o dinheiro demora a chegar às empresas. De nada valem os certificados de higiene em duplicado se os hotéis desconhecem quais as estratégias imediatas, nomeadamente ao nível do turismo interno. De nada vale a afirmação de que a capacidade de restaurantes e cafés não será reduzida se já se percebeu que existem limitações relativamente ao número de pessoas por mesas. Porque ninguém consegue 'esticar' os metros quadrados dos seus espaços de trabalho e muitos não têm sequer a possibilidade de por mais duas ou três mesas nas esplanadas. 

A mensagem que se vai ouvindo com maior insistência é mesmo o lamento de que assim não vale a pena abrir, sejam cafés, lojas de pronto a vestir, unidades hoteleiras, etc. E esse sentimento de impotência acaba, quase sempre, por se sobrepor ao medo do coronavírus.

Um desafio, portanto, também para quem gere esta fase de transição. Não deixar que a cura seja mais nefasta do que o próprio vírus. Porque mais do que 'desligar o chip' quando os empresários tornam públicas as suas dificuldades, importa perceber que por detrás destas queixas encontram-se milhares de trabalhadores em risco de engrossar as listas do desemprego.

O que vemos e ouvimos não é saudável. Até dos próprios governantes madeirenses, que se encontram à espera de várias respostas do Estado, nomeadamente sobre o pedido de suspensão da lei das finanças regionais e o pagamento do PAEF. Não há, de facto, um rumo definido, porque o progresso é condicionado pela própria covid-19. Mas esses condicionalismos não podem originar medos e regras perfeitamente extravagantes, como as que foram implementadas para as creches e prés...

Dizem os entendidos em matéria de saúde pública que as crianças terão de manter um distanciamento social de dois metros, no mínimo, não poderão partilhar brinquedos nem carinhos, enfim, as crianças não poderão ser... crianças. Mas permitem a abertura dos espaços para crianças se todas as crianças deixarem de ser crianças – perdoem a redundância – no espaço criado para o efeito. E quem cuida das crianças, claro, já procurou termos contratuais que as desresponsabilizem do cumprimento de regras impossíveis, feitas, quiçá, por quem não tem crianças nem procurou ouvir quem trabalha na área. Assim, voltamos a ouvir os lamentos: mais vale estar fechado.