Fazer escolhas

Todos os povos, todos os países têm histórias bonitas que ajudam a construir a sua identidade e a identidade dos locais onde essas histórias aconteceram. Normalmente têm origem em situações difíceis que se conseguem ultrapassar com ações solidárias de seres humanos.

O Funchal tem uma dessas histórias bonitas. O acolhimento dos Gibraltinos em 1940. Foram 2000 pessoas que chegaram de barco a 12 de agosto. Mulheres, homens mais velhos que o exército não aceitava para combaterem, crianças e jovens. 2000 pessoas evacuadas de Gibraltar, que chegaram ao Funchal e que cá viveram até 1945, estabelecendo relações de amizade com a população local e contribuindo para o desenvolvimento social madeirense. Este ano, em agosto, celebram-se os 80 anos deste acolhimento que deixou um sentimento de gratidão nos evacuados que cá viveram e que, ainda hoje, recordam o Funchal e a Madeira com enorme carinho e gratidão. Sempre se apelidaram de “Lucky Ones”, por terem conseguido viver aqueles anos de guerra num sítio calmo, bonito, com gentes acolhedoras. Sem ódio.

Na Câmara Municipal do Funchal temos estado a trabalhar num projeto que tem dado a conhecer às crianças do 1º CEB esta história, através de percursos na cidade, ajudando-as a descobrir como os seus antepassados, neste território pequenino e escasso, conseguiram fazer a diferença em tempos difíceis da 2ª Guerra Mundial. Souberam acolher, aproveitaram para conhecer e para evoluir positivamente em muitos dos seus costumes sociais. E fizeram-no de tal forma que ainda hoje há Gibraltinos que aqui chegaram em crianças e que nunca nos esqueceram, regressando anualmente com as suas famílias, mantendo a história viva para o seu povo e para os seus parentes. Fazem sempre questão de estar com o executivo da Câmara Municipal. O grande dinamizador desta ligação é Louis Pereira, com 94 anos. Um homem extraordinário, que tenho o privilégio de conhecer. Chegou à Madeira com 14 anos.

Não sei se a autarquia do Funchal vai conseguir assinalar este ano o marco histórico dos 80 anos, mas sei que o mais importante é que esta história linda não morra com o desaparecimento dos seus atores e atrizes, que seja passada aos mais jovens, ajudando-nos a perceber que está ao alcance de cada um de nós ajudar a construir a sociedade em que vivemos, tornando-a mais ou menos aberta, mais ou menos livre e respeitadora dos direitos humanos.

Tenho esperança de que a COVID 19 nos ajude a perceber que não são as nossas qualidades que nos definem. São as nossas escolhas. Todos os dias temos oportunidade de escolher entre o certo e o errado, entre o amor e o ódio, às vezes entre a vida e a morte. No final, é esse conjunto de decisões que caracterizará a nossa vida e a nossa sociedade.

Esta pandemia vai aumentar as desigualdades sociais e pode potenciar a violência sobre mulheres, crianças, idosos. Os direitos humanos não estão de quarentena e o seu cumprimento depende das opções de cada um de nós. Que saibamos agir e estar atentos, apesar de estarmos confinados aos limites impostos pelo estado de emergência. Que nunca esqueçamos a nossa humanidade. Fomos feitos para estar juntos e haveremos de poder abraçar-nos daqui a uns tempos.