O mal estar do mundo

Às vezes ainda acordo no teu lugar. Às vezes ainda sufocas e eu acordo para salvar-te uma e outra vez.

Ainda é pela escada que subo para encerrar o dia, mesmo sabendo que não houve tempo para afastar a insónia da vigília ou do amor. É capaz de ser a mesma coisa.

E tudo isto regressa com uma intensidade tremenda nestes dias de tempestade. O mal estar do mundo que tu tanto querias estudar e escrever, porque sabias ser esse o único movimento possível para entender o que nos inquieta.

Sim, o mundo mudou. Há uma guerra como aquelas que só tu sabias serem reais. Uma guerra feita de um inimigo invisível, um inimigo que ataca por dentro. Que ataca pulmões, cabeça, coração. Um inimigo que obriga à paragem da vida, seja ela a paragem definitiva ou esta espécie de intermitência em que nos encontramos.

As ruas estão desertas e as casas cheias de gente em suspensão. As crianças desapareceram para dentro de um abraço que quer proteger o futuro. Há um silêncio por cima de cada movimento e um medo que se infiltra em cada olhar dos que saem à rua. Ninguém sabe ao certo quem transporta o inimigo na garganta ou mais abaixo nos pulmões por onde passa o ar comum. É como trazer uma arma agarrada ao centro do corpo e a nova posição de defesa, que usamos com a perícia de quem aprende um novo golpe, teme a respiração do outro e a nossa. Estranha apneia esta a que nos dedicamos com a entrega de um jardineiro que cuida de um jardim frágil ao mais pequeno erro que circula em toda a possibilidade de vida. Nós é que nos tínhamos esquecido desta fragilidade que nos acompanha desde sempre.

Só os bichos, na inconsciência feliz de não saberem os nossos erros e omissões, é que parecem continuar a seguir o vento e o sol com a mesma atitude de sempre. Os cães ainda abanam a cauda, os gatos ainda sabem a preguiça do calor, os pássaros quase que não têm de desviar a rota do voo.

Obrigados a estar em casa, parece que o mundo, visto das inúmeras janelas que agora aprendemos novamente a abrir, descansa de nós.

Enquanto que nós suspendemos a respiração, o mundo parece respirar melhor. Enquanto que nós suspendemos o movimento, o mundo segue o dele e os dias e as noites não se abalam com a nossa ausência na rua.

Leio, na nota editorial do livro 'Um Morto com um Olhar Vivo", do poeta catalão Miguel Martí I Pol, que "Pior do que não haver muito a esperar dos outros, é perceber o quão pouco o mundo, hoje, quer ou espera de nós. O quanto nos convida a que nos apaguemos."

Ainda hoje acordei contigo a sufocar e eu a salvar-te uma e outra vez. Ainda hoje acordei a pensar o quão difícil é, para nós, aprendermos. Ainda hoje acordei a pensar se teremos capacidade de perceber a respiração que o mundo quer de nós depois deste apagão humano a que nos confinou.

*Para o Luís