O corona já chegou à Madeira! E agora?

E agora? Agora fique em casa! Sim, leu bem. Fique em casa. Leia, durma, veja aquela série que ainda não viu. Faça aquele projeto que tinha adiado, brinque com os filhos. Ou trabalhe no sofá, se puder. Mas fique em casa. Entenda que isto não é uma insistência de gente chata, aborrecida ou exagerada. Entenda que esta decisão vai causar gigantescos constrangimentos à economia local, às empresas, aos trabalhadores liberais, até aos grandes conglomerados turísticos. Ficar em casa vai ter um custo brutal ao Estado, face as todas as necessidades que terão que ser satisfeitas no «pós guerra». Porque está em causa a sua saúde, a minha saúde e a saúde de todos. Porque isto é para o proteger. 

Ainda assim tem dificuldade em perceber, acatar? Então vamos a números.

Sim, porque o ‘Corona’ é todo números. Quando o meu artigo saiu há duas semanas, o vírus já tinha alargado fronteiras e já começava a bater forte na Europa, embora, acredito eu, ainda longe de imaginarmos o panorama atual. Ainda assim eram já 114.381 infetados em todo o mundo e 4.025 fatalidades registadas. Em 2 semanas, (mais precisamente de 9 a 21 de março, à hora que escrevo este artigo) são 298.751 infetados e 12.780 mortos! Repito, em 2 semanas! Ou seja, os números que levaram quase 2 meses a atingir foram feitos e dobrados numa dúzia de dias, alcançado 186 países e territórios. Dos casos ativos, mais de 8 mil pessoas estão em cuidado intensivo em estado muito reservado.

Entenda-se que o problema do COVID-19 não é o seu grau de mortalidade. Pelo que se sabe, a maioria das pessoas acaba por passar de raspão pelo vírus sem qualquer problema. Muitos nem sequer sintomas desenvolvem. Mas quando surge, com sintomas muito semelhantes aos da gripe (como a febre, tosse, falta de ar, dores musculares e fadiga), esconde-se ao incauto até apanhar aquela esquadria mais vulnerável (os mais idosos, com pré-condições, etc), arrastando-os para um estado pneumónico grave e cujo organismo já não consegue combater sozinho. Aqui entra o verdadeiro problema do COVID-19. Ele esmaga-nos pelos números. Ou melhor, estrangula todo e qualquer sistema de saúde com a mera força da quantidade de pessoas que envia ao mesmo tempo. Os relatos que ouvimos dos inúmeros profissionais de saúde italianos revelam uma realidade dantesca, onde têm que escolher quem morre ou vive por não conseguirem acudir a todos que lhes entram pela urgência. E se pensarmos no elevado grau de contágio do ‘Corona’, estas pessoas colocam ainda todos os profissionais de saúde em risco, o que em caso de infeção causa ainda maior stress sobre o sistema, já de si muito fragilizado. Dificilmente preparados para responder a uma enorme afluência nos seus serviços, acabarão sem leitos no hospital, material necessário ou profissionais de saúde suficientes, o que significa que muitas pessoas poderão não sobreviver apenas por falta de uma boa assistência. Caramba, fique em casa!

Portugal não é excepção. A 1 de março não havia qualquer registo de infetados no nosso país. Em 20 dias são 1.280 casos de infeção e 12 mortes em Portugal. 156 pessoas estão internadas e 35 nos cuidados intensivos. 9.854 pessoas estão em vigilância pelas autoridades de saúde. De acordo com as informações oficiais são já mais de 24 cadeias de transmissão ativas no país. Na Madeira até 17 de março, zero casos. Num ápice 7. E grande parte de nós já está em isolamento social! Imagine-se o contrário. Estes números chegam para si? Continue em casa. Não seja um foco de contágio. Fique em casa.

Nota: a culpa disto não é dos turistas. Inevitavelmente se algo cá chegasse seria pela mão de um dos nossos visitantes. Mas não nos esqueçamos que também são pessoas, como nós assustadas com tudo o que se passa, para mais num país estrangeiro. E também não esqueçamos que há muito boa gente nesta ilha que vive dos euros que viajam nas suas carteiras. Que fiquem confinados? Sim. Como todos nós. Que tenham que regressar aos seus países? Sim. Mas com todo o respeito e dignidade que nos merecem.