“Conversações de Malines”, 2.ª parte

Após os encontros no Funchal, o Padre Portal regressou a Paris e Lord Halifax a Londres, levando vários projetos arquitetados numa terra distante, mas propícia

ao misticismo, contemplação e unidade dos povos e dos corações. A obra que Deus aqui tinha iniciado junto dos que sofriam pela tuberculose e escândalo da divisão da túnica inconsútil de Cristo, devia continuar de uma forma que não era difícil prever, devido a tantas iniciativas que surgiam na Europa depois de uma guerra homicida que destruíra parte da civilização cristã, sem respeitar sequer as catedrais, universidades e bibliotecas, sinal de ódio e vingança que exigia a unidade dos que invocavam o mesmo Cristo e Senhor.

No verão de 1893 e inícios de 1894, o Padre Portal foi convidado por Lord Halifax a realizar uma viagem à Inglaterra e tomar contacto com as pequenas comunidades católicas do Reino Unido. Foi visitar o arcebispo anglicano de York, Marc Logan que o recebeu com simpatia, ao contrário do arcebispo de Canterbury, que mostrou grande frieza, falando-lhe até do seu sentimento antirromano. A conclusão que o Padre Portal levou desta visita foi a necessidade de mais tempo para iniciar um diálogo entre as duas igrejas, embora continuando a orar e a ter esperança. Deus, porém, toma sempre a iniciativa, tinha preparado na Bélgica um Jovem sacerdote Désiré-Joseph Mercier, nascido em 1851, ordenado sacerdote em 1874, que ensinava filosofia tomista na Universidade de Malines. Em 1880 o Papa Leão XIII pediu-lhe o programa da filosofia tomista que o tornara muito conhecido, após ter fundado a Revue Philosophique de Louvain. O Papa Pio X nomeou-o em 1906 Arcebispo de Mallines e, em 1907, Cardeal.

Sofreu muito com a Primeira Grande Guerra, tendo o exército alemão queimado a biblioteca de Louvain e destruído parte da catedral da cidade.

Com a permissão do Papa, a alegria do Padre Portal e a do Lord Halifax, em dezembro de 1921, o Cardeal Mercier iniciou as “Conversações de Malines”, cinco encontros informais das Igrejas Católica e Anglicana, para examinar os pontos de acordo ou desacordo e tratar de uma possível unificação entre as duas igrejas. As reuniões realizaram-se em dezembro de 1921, junho e dezembro de 1923 e a quarta em março de 1925 presididas pelo Cardeal Mercier.  A quinta e última “Conversação” para coordenar os documentos oficiais, foi presidida pelo novo Cardeal de Malines Joseph Ernest van Roey, não tendo participado o Padre Portal nem Lord Halifax. Os textos das Conversações anteriores foram publicados, em 1928 Lord Halifax publicou as suas notas pessoais com o título “Notes on the Conversations at Malines 1921-1925”, a comunicação oficial (“Official Documents”) apareceu em 1936.

O Cardeal Mercier deixou as suas notas que influenciaram o futuro Cardeal Leo-Joseph Suenens, grande defensor do ecumenismo, um dos membros importantes e influentes do Concílio Vaticano II (1962-1964) que, a 21 de novembro de 1964, publicou o “Decreto sobre o Ecumenismo”.

No Funchal, onde há 100 anos aconteceu o encontro Padre Portal- Lord Halifax, falta uma memória deste célebre encontro da Igreja Universal; sugeri ao então Presidente da Câmara uma Rua ou Praça com este nome, pedido que foi bem aceite e prometido; o centenário poderia ser a ocasião para o seu comprimento. Tanto neste ano como noutros anos passados, a Madeira tem sido visitada por grupos de cristãos ligados ao ecumenismo, dum modo especial os do “Centre Saint-Irénée” de Lyon que, através do “Bulletin Oecuménique Chrétiens en Marche” tem realizado peregrinações à Madeira, devido ao facto de um célebre encontro histórico, do qual só poucos madeirenses têm pleno conhecimento, mas onde reconhecem a presença do Espírito.