E dantes, como era?

Os da minha e de anteriores gerações tiveram sempre dificuldade para fazerem os filhos e netos compreender, ou até acreditar, que a vida nem sempre fora como agora. Que no passado, nem tudo era assim tão fácil. Que nem todos tinham acesso a bens e serviços que hoje parecem banais e elementares a qualquer pessoa, de qualquer classe social. Que nem tudo esteve sempre disponível para nossa inteira satisfação. Que a vida tinha sido cruel para a grande maioria. Que andar descalço, comer milho sem nada ou dormir amontoado numa cama, quando havia, tinha feito parte dum quotidiano não muito distante. Sempre que, perante uma dificuldade, havia tentativa de explicação aos mais novos, com referência a esse passado, lá vinham as expressões juvenis, “dáá, outra vez!”, “isso já foi!”.

Perante tamanha convicção e a evidência de que o mundo hoje era outro, ficávamos forçados ao silêncio. Havia por todos uma fraca ou nula percepção de que uma ruptura social ou económica poderia agora acontecer. Mas, se calhar e infelizmente, tudo isso acaba de mudar. Porventura, hoje, na clausura forçada desta penosa quarentena, os jovens estarão disponíveis para ouvir as vozes do passado e perguntarem aos pais e avós: “Então, como é que era antigamente?”

Agora, ouvintes atentos e interessados, alguns serão convidados a visitar a enorme galeria de fotos hoje disponíveis na net e que mostram vilas sem estradas, caminhos de terra ou calçada, casebres de palha onde se amontoavam famílias numerosas, paisagens pitorescas onde a vida acontecia a preto e branco, pontes e caminhos devastados pelos temporais, o hidroavião, a abertura do aeroporto, ainda rudimentar. Navios e bomboteiros, os rocheiros e a construção das levadas. E, no meio de tudo isso, o rosto de crianças pobres mas felizes sem que ainda existisse o telemóvel ou a internet.

Alguns, poucos, ouvirão dos horrores das guerras mundiais e da miséria sentida na ilha. Outros, a grande maioria, ouvirá falar de como tudo era diferente no antigo regime político. De como eram as conversas, os encontros combinados por redes interpessoais, o respeito pelo outro e pelas instituições, o medo, também o medo imposto por um modelo autoritário onde abundavam os deveres e escasseavam os direitos individuais. Ouvirão falar da guerra, de África, das privações a que as pessoas estavam submetidas. Da felicidade que existia para muitos, mesmo assim. E vão ouvir falar muito de como era diferente. De como não havia oportunidade para através de redes sociais termos de ver, ler e ouvir uns chicos espertos que sabem tudo sobre tudo, que têm soluções imediatas para todas as adversidades que afligem a nossa sociedade.

E vão ouvir das alegrias de Abril, da Revolução, dos cravos e da Liberdade. Dum mundo novo “claro e limpo” que acabava de nascer. Da massificação do ensino, do nascimento do SNS, da democracia e do enorme crescimento económico e social que o país e a região atravessaram. Ouvirão, se é que já não ouviram, falar de Alberto João Jardim e da enorme obra social e de desenvolvimento das infraestruturas da Madeira, da autonomia política e de múltiplas lutas eleitorais.

E depois, os mais novos, ficarão a saber que, como na vida das pessoas, também há tropeções na vida das sociedades e até da humanidade. Que há crises financeiras que nos obrigam a perceber de finanças públicas, que o ordenado, o emprego, a reforma ou a poupança no banco não estão nunca garantidos. Que nada está garantido. E que até um vírus pode mudar tudo do avesso.