Quarentona

Não sou de ir contra as regras. Geralmente acato-as! Mas vai desculpar-me o senhor Presidente do Governo. De quarentona eu não fico. Pelo menos para já! A minha tem 35 e estou satisfeito assim. Já de quarentena... Eu alinho!

É que isto do corona vírus está bonito está...

A curva é exponencial. E isso já se aprendeu com os chineses. Reforçou-se com os italianos. Confirmou-se com os espanhóis! Mas também se sabe que qualquer número multiplicado por zero... Dá zero! Nicles. Coisa nenhuma.

E era quando não havia nenhum infectado que se deviam ter fechado fronteiras. Isolarmo-nos do mundo. Mesmo que parecesse exagerado. Drástico. Pelo tempo que fosse necessário. Bem sei que somos um país que importa mais do que exporta. Mas este era um bem que era perfeitamente desnecessário. Estava em causa muita, muita, muita gente. Muitos passarão ao lado. Uns sentirão sintomas leves. Alguns serão atirados ao tapete. Outros, poucos se Deus quiser, serão reduzidos a pó.

Eu sei que estamos também a correr o risco de morrer da cura. Que o isolamento vai extinguir o turismo. Que vai colapsar hotéis. Que vai encerrar restaurantes. Que vai asfixiar empresas umbilicalmente ligadas ao lazer. Que vai pulverizar postos de trabalho. Que vai arrastar toda uma economia não para o abismo, mas para a queda livre.

Nesse sentido, foram já anunciadas pelo Governo medidas que se assemelham a coletes salva-vidas e pára-quedas. Louváveis. É, de facto, para isto que quase todos contribuímos com impostos. Para que nos seja dada (ou pelo menos prometida) esta garantia de sobrevivência.

Porque do nada, apareceu algo que veio repor a igualdade social. O mais rico do ilhéu tem a mesma hipótese de sobreviver que o sem abrigo mais miserável. Idealmente! O que tem o carro mais caro, com ar condicionado e estofos em pele, só vai poder sair de casa pelos mesmos motivos do que o que tem uma bicicleta com pneus carecas e sem travões.

Outro facto que me faz suster a respiração é a incerteza do final deste filme de terror. Não só não se sabe como vai acabar, como é impossível vislumbrar quando é que isso vai acontecer. Uma vez disseram-me para acreditar que “no fim vai ficar tudo bem”. E se, por algum momento, eu disso duvidasse, era sinal de que ainda não tinha lá chegado. Tenho procurado agarrar-me a isso. Não vejo a hora de poder fazer a quarentena inversa. Ficar sem ir a casa 14 dias! E não vale a pena decretarem estado de emergência. Eu volto. Juro. Mas sem pressa.

Animemo-nos então. Até porque a vida não corre mal a todos. Tem que haver sempre alguém a “lucrar”. Sempre. Senão vejamos. Somos asseadinhos, mas nunca lavamos tanto as mãos. Disparou a procura pelo sabão. Ganhou quem o comercializa. De desinfectantes das mãos e superfícies então nem se fala... Máscaras, luvas e batas descartáveis? Mais houvesse! Até ventiladores foram procurados a qualquer preço. Isto sem falar das funerárias que, a ver pelos outros países, se preparam para uma época alta.

Enfim... Já me lembrei também tanta vez daquele conhecido empresário madeirense condenado por abuso de confiança fiscal que se foi entregar à cancela não há muito tempo. Quando o voltarmos a ver na rua vai sempre poder dizer: “eu? Preso? Cá nada. Estive foi em isolamento social”. Assim como assim eu também não estou muito diferente... Partilho a cela com mais 3 reclusinhos (sentenciados por crimes de fralda de colarinho branco) e a cama com uma profissional da arte de extorsão! Volta e meia ainda diz “dá-me o cartão e o pin que isto fica só entre nós”. Vejo-me e desejo-me. O que nos separa realmente é o facto de eu ainda poder apanhar o sabão sem me encostar à parede. Ao menos isso...


Ps, Cuidem-se. Protejam-se. Zelem pelos vossos. Vamos todos fazer por podermos voltar a comemorar um dia do pai, um domingo de Páscoa, uma festa da flor ou outro qualquer momento especial juntos. Agora é hora de nos separarmos para nos podermos voltar a reunir. (Espero que a minha mulher entenda de uma vez por todas)