Estado de Emergência

Após ter sido decretado Estado de Emergência Nacional, os portugueses foram parcialmente privados de um conjunto de direitos fundamentais previstos na Constituição da República Portuguesa.

Estes incluem os Direito dos Trabalhadores, da Propriedade e Iniciativa Económica Privada, da Circulação Internacional, da Reunião e Manifestação, da Liberdade de Culto, da Resistência e da Deslocação e Fixação em qualquer parte do Território Nacional. Estou em crer que do ponto de vista social, a medida que mais afeta a rotina diária dos portugueses é a parcial suspensão da livre circulação em qualquer parte do território nacional, a qual pode incluir o confinamento compulsivo no domicílio. Quer isto dizer que os portugueses, salvo honrosas exceções, terão de permanecer em casa e estabelecer novas rotinas.

Acontece que o consumo noticioso ocupa uma posição dominante nas nossas vidas. Segundo Hegel, a própria sociedade tornou-se moderna quando as notícias tomaram o lugar da religião como a nossa fonte de orientação e de autoridade. Os meios de comunicação são os que mais influenciam a educação das populações e se é verdade que estamos enclausurados em salas de aulas durante os primeiros 18 anos da nossa existência, passamos o resto da vida sob a tutoria das entidades noticiosas, cuja influência é infinitamente maior que aquela providenciada pela nossa educação formal. Sucede que o seu impacto nas nossas vidas será ainda maior em situação de confinamento, fruto da pandemia causada pelo vírus COVID-19. A necessidade redobrada de estarmos permanentemente conectados leva-nos a querer absorver o máximo de informação possível. Depois de um intervalo que pode durar apenas 10 a 15 minutos, interrompemos o que estamos a fazer para ver notícias. A nossa vida fica suspensa na ânsia de receber mais uma dose de informação essencial sobre esta nova pandemia que aflige a humanidade.

Estamos sempre a ver notícias porque as nossas apreensões vão-se acumulando. Sabemos que são muitas as coisas que podem correr mal e com grande rapidez. Mas por mais terríveis que essas notícias possam ser, relatando a cada momento do crescente número de mortes e de infetados, bem como dos terríveis impactos económicos e sociais daí decorrentes, comparáveis apenas a tempos de guerra, acabam por constituir um alívio face à claustrofobia do nosso isolamento.

No entanto, devemos consumi-las de forma moderada e com sentido crítico, evitando ser contagiados por um outro vírus tão ou mais perigoso que o COVID-19: o vírus do Medo. Não devemos deixar que este se apodere de nós. Que o próximo seja encarado como um inimigo. Que a intolerância e a indiferença floresçam. Que se anule aquilo que foi conquistado com o suor e a audácia dos nossos antecessores – um Estado de Direito Democrático onde se celebra a vida, a liberdade, a paz, a justiça, o respeito e o amor. Neste momento de contenção, onde «quanto mais cedo nos distanciarmos, mais cedo nos abraçaremos», aproveitemos para explorar o nosso interior, para valorizar aquilo que realmente importa e para nos aproximarmos daqueles que amamos.

Como dizia Alain de Botton: «Nos nossos dias, é uma proeza ter um momento de calma, um pequeno milagre a capacidade de adormecer e de conversar com um amigo sem distrações – e seria necessária uma disciplina monástica para nos fazer virar as costas ao turbilhão das notícias e não ouvir, por um dia, senão a chuva e os nossos próprios pensamentos.»