O Autismo e a Neurodiversidade

Nos últimos anos temos assistido à proliferação dos movimentos da neurodiversidade, em parte, devido à maior visibilidade dada a esta temática por parte dos media, principalmente após o lançamento do livro “Neurotribos: o legado do autismo e o futuro da neurodiversidade” do jornalista científico Steve Silberman, em 2015. Mas o que é, afinal, a neurodiversidade e quem são os indivíduos considerados “neurodiversos”?

O termo neurodiversidade foi descrito em 1998 pela australiana Judy Singer, socióloga, autista e ativista, que classificou certas condições neurológicas (por exemplo: o autismo) como variações naturais da diversidade humana, e não como doenças ou perturbações. Da mesma forma que existem pessoas de diferentes raças, géneros, cores de olhos, tipos de cabelo, também existem diferentes cérebros e predisposição neurológica (funções: cognitivas, afetivas e percetivas). Para esta investigadora o desenvolvimento neurológico atípico (neurodivergente) para os padrões convencionais de normalidade é um acontecimento biologicamente natural, e necessário. Baseando-se na teoria da evolução de Charles Darwin (1809-1912), em que a variabilidade intra-espécie é crucial para evolução, a neurodiversidade é, um subconjunto da biodiversidade, central para o sucesso da espécie humana.

O conceito de neurodiversidade engloba indivíduos com várias patologias do neurodesenvolvimento: Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), Perturbação de Hiperatividade de Défice de Atenção (PHDA), Perturbação do Desenvolvimento Intelectual, dislexia, dispraxia, discalculia; e outras patologias neurológicas e psiquiátricas. Os indivíduos autodenominados neurodiversos consideram-se neurologicamente diferentes.

A globalização do conceito de neurodiversidade, devido à internet e às novas formas de comunicação eletrónica, facilitou a emergência do movimento da neurodiversidade. Este movimento foi muito apoiado pela comunidade autista (doentes e seus familiares), especialmente aqueles que se sentiam marginalizados. O logotipo da neurodiversidade (símbolo de infinito colorido) foi criado por indivíduos autistas. O lema deste movimento internacional de direitos civis é a consciencialização, aceitação, celebração e valorização da identidade de cada um. No caso do autismo, privilegia-se o ser autista, em detrimento do ter autismo, pois “não é possível dissociar a pessoa do autismo” (Jim Sinclair).

Em oposição ao modelo médico, que procura prevenir e intervir o mais precocemente em patologias como o autismo, os defensores do movimento da neurodiversidade rejeitam a cura para estas “diferenças neurológicas”. Defendem a normalidade neurológica e colocam diferentes grupos de indivíduos como minorias em termos de poder, representatividade e acesso social. A motivação destes ativistas é facilitar o apoio necessário à expressão da diversidade humana, promovendo: redes de suporte, serviços focados na inclusão, tecnologias de apoio à comunicação, apoio a residências de vida independente e criação de condições de trabalho. 

A maioria dos pais e público em geral apoia o modelo médico que categoriza o autismo como doença. Nesta disputa pelo estatuto ontológico do autismo: doença ou diferença, o mais sensato será transcender a dicotomia (modelo médico versus neurodiversidade) e potenciar o melhor dos dois modelos. Porque cada ser é único e especial!