Chef, mas pouco

Dedicado a uma menina que queria ser Chef, mas muito.

Há dons para todos os gostos, tenho os meus nomeadamente acertar com os dedos mindinhos dos pés nas esquinas, ao ponto do direito se parecer mais com um amendoim com casca do que com um dedo humano. Alegadamente também conduzo bem, manejo uns saltos altos com destreza (e sorte), entre outros decerto menos relevantes. Já cozinhar… Cozinhar está para mim como andar de bicicleta está para uma girafa…

Em abono da verdade eu fui uma privilegiada, nunca tive de cozinhar quando era miúda, nem sequer limpar. Ou me dava para isso e lavava a casa de banho de cotonete ou escondia a tralha toda do quarto na escrivaninha de abrir, para enganar a minha mãe (até ao dia em que a abriu e ficou semi soterrada).

Cozinhar começou, pois, voluntariamente e só no departamento dos bolos que de facto eram bons, eram, nunca mais fiz, não me apetece.

Porém, quando me mudei para Lisboa tive de me desenrascar, até porque vivi quatro anos sozinha e preferia as minhas espécies de cozinhados a incursões a cantinas públicas, porque sou bicho do buraco e gosto de estar em casa, invisível.

Os meus pratos de assinatura: arroz seco com atum em lata (só a mim não convidam para “O Programa da Cristina”) que formava um consistente bolo alimentar a centrifugar na cavidade bucal até se permitir ser deglutido; esparguete elástico; dourada nua (a pele ficava colada no grelhador); ovos fritos saltitantes, que eu atirava para a frigideira a meio metro de distância do fogão e cujo óleo salpicava para todo o lado, inclusive para mim. Mas, as especialidades eram mesmo o bife de pedra (segurava-se pela base e permanecia de pé) e o puré de ervilha faqueiro (começava-se a comer de colher e terminava-se de faca e grafo).

Em vinte anos de relacionamento o meu marido “gaba-se” de só lhe ter cozinhado duas vezes. Não sabe a sorte que tem…

Cozinhar é tão contra natura para mim que, numa viagem de trabalho do patriarca da minha casa o meu filho, de três anos, ainda vestido de pijama inteiro com pés, informou que tinha fome. A roer as unhas, sofrendo por antecipação, perguntei o que desejava degustar, rezando para não encomendar um “soufle” ou um “cordon bleu”. A resposta foi: “machinha com ovo”! Ufff, isso ainda se arranja. Foi a primeira (e última) vez que me viu ao pé do fogão. Veio correndo, como que para assistir à passagem de um avião, olhando para mim muito espantado indagando: _”Mamã!! Tu xabes?!!”