Ao cuidado dos Lourenços

Queridos Lourenços, não sei se me conseguem ler. Parto do princípio que o sabem fazer! Bater eu já vi que sabem. Mas ler não é tão fácil. Eu entendo. Provavelmente ouviram falar em estudar à noite. Confundiram com andar na noite. Não vou ser eu que vos vou criticar! Também já tive a vossa idade. Chegava a casa quando os meus pais já tinham saído. Saía quando ainda não tinham chegado. Passei mais tempo com alguns amigos em discotecas do que com colegas em salas de aulas. Mas tinha sempre uma coisa bem presente. O lema que o meu pai desde cedo nos incutiu (a mim e à minha irmã), de que “a liberdade usa-se enquanto se souber usar”.

Talvez por isso, nunca chumbei um ano. Nem uma negativa se tive. Não é que não fizesse das minhas. Mas não me permitia a grandes deslizes. Sabem porquê? Porque tinha e tenho um pai que ainda se sacrifica. Dá o exemplo. Trabalha hoje, como se precisasse, o mesmo que quando necessitava. Ou mais ainda! Acreditam que há dias em que chega a casa depois de já terem tomado meia dúzia de copos e estarem já no modo “rambo”?

Pois é. Mas não pensem que somos exemplos. Ele não é! Foi pouco presente. Trabalha demais. E já não o devia fazer. Porque preciso muito mais dele do que de qualquer coisa que o dinheiro possa comprar. Não digo que devesse ir fazer figuras como vocês, mas que já devia estar a aproveitar a vida que sempre nos proporcionou e nunca gozou, lá isso devia!

Eu muito menos. Sou um imbecil que nunca na vida andou à pancada. Otário. Sempre achei que resolvia tudo com o diálogo. Mas isso sou eu. Que nunca passei por situações tão delicadas como as que se descrevem como motivo da altercação. Uma coisa é certa. Ninguém briga sozinho! E vocês devem ter sido mesmo levados aos limites. Ouvir “piropos” por causa de futebol (como justificam) é mesmo de nos tirar do sério. Não querer que uma miúda se vá embora com o tio (como se queixam eles) é do pior que pode acontecer no final de uma noite em que já contavam não ir sozinhos para casa.

Recuso-me a apontar o dedo aos vossos pais. Sabem porquê? 1.º porque não acredito que algum deles vos dê dinheiro e vos diga “toma e diverte-te. Livra-te de voltar sem espancar alguém”. 2.º porque, num cenário daqueles eu quereria estar no lugar deles. Queria ser sempre o pai dos que dão. Deus me livre ser o pai dos que levam. Podem ter a certeza que não iam colocar as fotos do depois, a mostrar um lábio negro como “marcas de guerra” e a se vangloriar com o bícep contraído dizendo que “os outros ficaram piores”. Nem teriam que responder por tentativa de homicídio. Seria a primeira vez que esqueceria o poder da prosa. Dar-vos-ia, sei lá... Um abraço. Apertado. Pelo que há de mais sagrado. Acreditem, portanto, que não vos crucifico... Há vezes em que apetece mesmo partir para a violência!

Mas sabem que mais? O vosso arrependimento até pode ser importante para vós, se realmente vos fizer aprender alguma coisa. Para mim é que conta pouco. Sou daqueles que acredita que as atitudes são opcionais, mas as consequências não...

Dizem-se envergonhados? Deviam. Incomodados? Não é para menos.

À distância eu sinto é o cheiro a borrado. No fundo são uns pequenos. Uns pequenos que acham que resolvem tudo à pancada e ainda se gabam disso. Não têm culpa! É vosso. Mas um qualquer dia acabam por perceber que vão colher tudo o que plantarem. Por isso, convém é que alguém vos ponha no sítio enquanto é tempo. Se ainda forem a tempo!

Senão, olhem... Dediquem-se ao boxe. Ao muay thai. Ao kung fu. Ao que quiserem! Num ringue, com regras e com o adversário de pé e lúcido.

Se bem que estão mesmo é na idade de se ir formar.

Vá, eu ajudo. Comecemos pelo português. Já ouviram falar no “luar de janeiro”? Augusto Gil, diz-vos alguma coisa? Aquele poema que começa assim: “Batem leve, levemente...”. Estão a ver qual é? Ok. Pois bem. Adaptei-o... Por vocês! Passará a ser “um amanhecer de fevereiro”. Aqui vai.


Batem leve, levemente,

como quem chama por mim.

Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente

e os Lourenços não deviam bater assim.


Vá. Força Lourenços. Perdão. Menos força. Portem-se bem.