Sobre gente: o Pe. Laurindo

(a propósito do livro, O Pai Laurindo, editado pelos Salesianos e apresentado ontem).

Chamava-se Laurindo Leal Pestana. Nasceu na Madeira a 17 de janeiro de 1883. Foi ordenado padre em 1906. Em 1915, é-lhe entregue a Paróquia do Socorro, da qual era cura desde 1911.

Faltava fazer a história deste Homem, considerado por D. Maurílio Gouveia, um dos cristãos exemplares da Madeira. Como a Irmã Wilson. Como outros homens e mulheres que honraram o nome desta terra e a aproximaram um bocadinho mais do céu.

Este ano, em que os Salesianos celebram os 70 anos de chegada à Madeira, faz-se memória daquele que os trouxe para esta ilha de sol e do mar, mas de uma pobreza que doía no coração deste homem. Do Padre Laurindo, sabemos do amor. “Ele amava”, disse-me quem lhe conheceu os passos, a voz, a batina surrada, o guarda-chuva velho.

Cedo se apercebeu da miséria que grassava nas ruas, dos órfãos, dos miúdos que dormiam ao relento, nas canoas varadas no calhau, da fome – havia muita fome, nesse tempo que era de guerra e de desamparo. Quem se lembra dele, sobretudo os rapazes desse tempo que já não são rapazes, falam de um “santo”, de um “pai”, para quem corriam a pedir a bênção, certos de que, do fundo da sua batina puída, havia de sair um tostão, um doce; certos de que a mão do padre havia de tocar as suas cabeças, com um «Deus te abençoe, meu filho!”, que fazia a vida menos dura; certos de que o “vem comigo!” havia de lhes matar a fome e de lhes abrir as portas do futuro.

Foi ele que entregou as meninas às Irmãs Vitorianas. Foi ele que foi buscar os Salesianos para virem tomar conta dos seus rapazes e dar continuidade à Escola de Artes e Ofícios que havia fundado.

Os salesianos chegaram em 1950. As palavras do Pe. Laurindo, já muito doente, foram estas: “Posso morrer descansado. A minha obra está em boas mãos”.

Quando morreu, no dia 3 de abril de 1951, a Madeira inteira chorou, as lojas encerraram meias portas; o  Marítimo tinha a bandeira a meia haste. Na nota do dia do Jornal, ficou impressa a definição da vida de um homem bom: “deu o coração aos bocadinhos a todos, consolou os tristes, amparou os pobres, deu-se totalmente ao sacerdócio e não sendo um vencedor da vida, venceu a vida. (…) Não era um grande na Terra  que ia a enterrar mas um grande do Céu”. Um santo, diríamos nós.