Uma coleção de saudades

Não sei bem como começou. Só sei que agora, cada vez que eu viajo, quero visitar a livraria mais antiga da capital.

Foi assim que descobri  a livraria mais antiga do mundo. Livraria boa é aquela que nós entramos e nos sentimos abraçados. Foi assim que eu me senti na Bertrand.

Ontem fiz uma coisa que não fazia há imenso tempo, e que até há uns anos fazia bastante: passear pelas livrarias! (minto)

Dei uma volta geral, tinha tempo, explorei. Fotografei um livro que me interessou para pesquisar mais sobre ele, e depois fui procurar a secção das promoções. Aqui começou o pânico, encontrei mais ou menos a zona, porque já conhecia a livraria. Enquanto me debatia internamente para não comparar esta experiência de busca com a do mundo digital, ouvi uma criança gritar fortemente pelos decibéis dos gritos na outra ponta da livraria. Não me atrevi a olhar.

Sinceramente, não me impressionei tanto com os livros em si. Além de edições caras,  feiosas ou até mesmo aquelas que ficam bem com os cortinados (risos), a literatura portuguesa parece meio… dramática. "Não se encontra o que se procura", "Para onde vão os guarda-chuvas", "Minto até ao dizer que minto" e "No meu peito não cabem pássaros".

Mas um livro chamou a minha atenção: "Quem me dera ser onda", do Manuel Rui, um escritor angolano que eu não conhecia.

Saí e sentei-me no café mais próximo, pedi um chá gelado e comecei os trabalhos. Pediram-me que escrevesse algo para publicação, mas neste emaranhado de letras soltas e palavras, encontro o vazio em que eu me encontro e tenho a impressão de me ter perdido como numa velha história.

A noite passada tive um sonho, estranho, sei-o. Sonhei com um jardim submerso em nevoeiro onde quase não se viam nem bancos, nem arbustos e a luz era ténue. Mas ao longe vi-a:”… estava a atravessar a ponte quando decidiu matá-lo”.*

Ao longe e num ímpeto de aprovação esdrúxula ela avançava com passadas largas e o nevoeiro parecia não a travar. Seguia decidida o seu caminho e os seus passos ressoavam na rua como se fizesse tarde. Parecia fazer muito frio pois trazia vestido um casaco grosso e castanho que a cobria até aos pés e nas mãos tinha umas luvas, igualmente castanhas, de pele de carneiro. Levou a mão ao bolso do casaco ao aproximar-se da esquina. Estacou e viu-o, ali estava ele, um homem com gabardina verde. Parecia  ter estado à espera dela. O homem voltou-se e encarou-a de frente. Trazia no rosto estampado o cansaço dos dias e parecia em súplica, pedir perdão. Ela aproximou-se decidida e disparou.

Toca o despertador e eu  acordo num sobressalto do meu sonho desconcertante. Recomponho-me, afinal foi apenas um sonho.
Estou com a sensação de que este ano está a passar a correr. Em janeiro andávamos em ressaca do Natal, em fevereiro hibernamos e daqui a nada estamos em março…

Este tempo deixa-me assim. Em passos largos é já primavera e “os lilases começavam a florir, e era estranho, nunca os tinha visto em flor. Só os vemos secos que cobriam as paredes e as árvores, como teias de aranha mortos, como teias de aranha mortos”.*

*Neverness – Ana Teresa Pereira