Coragem ou desespero

Não sei que roupa vestia. Não sei porque o fez. Não sei se deu sinais. Não sei como pensava. Não sei se teve medo. Não sei se foi um ato de bravura. Não sei se foi um ato de desespero. Sinto muito, mas não sei.

As ideias subitamente pararam. “Impossível” ter concentração. Era necessário retomar. Em qualquer lugar que estivesse era como se fosse um robot.

Será que procurou respostas? Será que queria chamar a atenção? O EU e o NÃO EU são sempre os protagonistas na ambiguidade desta descoberta de querer saber quem somos. Complexo, isso, eu sei que sim. Estaremos imunes? Controlamos? Coragem ou desespero? Discutível. Tabu? Sim, ainda.

Somatizamos a construção de um limite com ideações surreais, das quais acreditamos e que nos adoecem a alma. Culpabilizamos o outro dos nossos atos para que possamos ser validados.

Necessitamos de colo, mas somos adultos e não pedimos.

Não! Não controlamos tudo (pensamento que mente quando pensa que sim).

Em segundos são construídas pontes, são produzidas cordas, o mar tem uma perspectiva 3D, tudo em segundos é construído na mente de quem já não suporta a dor emocional, e vai. Vai com coragem ou desespero? Que importa o nome que lhe damos? A mente mente-lhe e ele acredita. São notícia de jornais, são conversas entre vizinhos, são lágrimas entre amigos e são suposições dos desconhecidos. Tudo se passa como no bungee jumping, salta-se no mundo do vazio, amarrado, sem saber se o elástico o traz de volta à superfície. Há quem fale de um túnel e há quem já não chegue a falar de nada porque decidiu cortar o elástico, porque decidiu não voltar simplesmente. Será que o queria fazer mesmo? Ou seria apenas o desespero da dor sentida na alma de quem pensa não haver mais soluções?

Tantos são os fatores que influenciam a decisão. A despersonalização, o desconforto, a pressão, fazem eclodir a “raiz” do iceberg na imensidão do mar de angústias.

Nem sempre tem de haver um diagnóstico e nem sempre querer acabar com a dor, significa querer acabar com a vida. Não sei onde estão agora… não sei se é coragem ou desespero. Sei apenas que o sofrimento psíquico é superior a qualquer outra razão naquela mente que mente. Não é como tomar um xarope e a dor passa. A verdade é que não existe idade para querer tirar a própria vida. Cada vez mais o silêncio ocupa as vozes da alma sofrida e o sorriso esconde um nada que deixou de fazer sentido. Existem tantos momentos absurdos, neste sentido sem sentido, mas que fazem parte da existência e condição humana. Não estamos preparados para o sofrimento. Negamos, fugimos, refugiamo-nos e para muitos, acabam com ele (nas suas mentes que mentem).

Não conheço outra palavra para definir suicídio, mas conheço a dor de quem já falou dele como uma possibilidade de voltar a viver num mundo sem sofrimento. Não sei que horas eram, mas deixou-me uma mensagem do que gostaria que tivesse sido a sua existência. Não sei que roupa vestia. Não sei se foi coragem ou desespero. Não sei!