Eutanásia como direito

Bom dia, boa tarde, boa noite, conforme a hora e local onde o leitor se encontra. Está naquela altura do ano, mais preciso que um relógio suíço, o tema eutanásia volta aos telejornais, capas de jornais, assunto de crónicas e demais, bem como partilhas virais nas redes socias de fontes fidedignas... O ciclo repete-se, invariavelmente, ano após ano, discute-se, fala-se, lançamos o caos, ouvimos um lado e outro, sugerimos referendos, negamos referendos, dizemos que há coisas mais importantes para discutir, ignoramos, fechamos os olhos, e voltamos a colocar o assunto na gaveta, como as camisolas de natal que estão na moda na altura natalícia, para daqui a um ano desenterrarmos o assunto e voltarmos a fazer tudo de novo.

O leitor que segue os escritos deste escriba, já sabe qual é a minha opinião sobre o assunto, o leitor que apenas hoje está a ler a crónica irá ficar a conhecer...

Em 2017, algures numas páginas do JM, apelidava o assunto como “tabu”, continua a sê-lo, fruto, talvez, da ignorância sobre o que é exatamente a eutanásia, aqui é provável que, também eu, não tenha feito o trabalho direito de esclarecer o leitor sobre o assunto. Eutanásia é o ato intencional de provocar uma morte indolor, aliviando assim o sofrimento de uma pessoa, caso contrário é suicídio ou homicídio. Dentro deste prisma existem duas vertentes, a eutanásia voluntária, onde o próprio indivíduo, ciente da sua condição, pede para morrer, a verdade é essa nua e crua e não me vou por com paninhos quentes, e a involuntária, onde a pessoa já não tem condições para tomar a sua decisão e a mesma é deixada para outra tomar, em linha com os desejos expressos pela pessoa doente. A eutanásia deverá ser feita e encarada como um ato médico, como qualquer poderá ser sujeita a objetor de consciência.

Agora que já temos estabelecidas o que é a eutanásia, vou contar um segredo, se o caro leitor me permite: sim, sou a favor da eutanásia.

Acho que a eutanásia é a derradeira forma de liberdade que um indivíduo pode ter. É a maneira que temos, quando chegamos ao fim, de sentirmos importantes, de sentir que a nossa vontade conta para alguma coisa, não há nada mais angustiante de estarmos perante alguém que quer morrer, que é o seu desejo, que está a sofrer ali, deitada numa cama de hospital, escolheu aquilo, escolheu que a sua vida deveria acabar, que já não tem força física e psicológica para continuar, e nós armados em deuses, continuarmos a negar isso. Negamos uma escolha, negamos um direito, e é isso que para mim é a eutanásia, um direito.


Sqürl – Some Music for Robby Müller

Escrevo-vos na ressaca dos Oscares. Estranhamente a parte musical de hoje está relacionada com o cinema e não é por ser uma banda sonora. Sqürl é o projeto do cineasta rei do cinema independente, Jim Jarmusch, e neste último álbum traz-nos uma homenagem ao cinematógrafo alemão Robby Müller, que trabalhou, para além do próprio Jarmusch, com figuras de proa do cinema mundial, como Wim Wenders, Peter Bogdanovich, Roberto Benigni, Lars von Trier, entre outros.

Durante os trinte minutos que tem esta homenagem, Jarmusch leva-nos na conjugação perfeita entre cinema e música, faixas como “While Vermeer Was Sleeping” transportam que escuta para um universo cinematográfico desenhado por Robby Müller mas composto por Jarmusch. “Robby’s Theme” funciona como a música que acompanha um filme do princípio ao fim sempre que personagem principal entra em cena. “Some Music for Robby Müller” é o álbum que os amantes do cinema não sabiam que precisavam e que os estudantes da sétima arte imaginavam.