O lado humano

Milan Kundera escreveu na sua obra Imortalidade: “Lembro-me de que na minha infância, quando se queria fotografar alguém, se tinha sempre de pedir licença. Até a mim os adultos perguntavam: diz lá, pequenina, podemos tirar-te uma fotografia? E depois, um dia, ninguém mais pediu licença. O direito da câmara foi colocado acima de todos os outros direitos e desde esse dia tudo mudou, absolutamente tudo”.

Veio-me à memória após uma entrevista que a histórica sindicalista e activista Guida Vieira concedeu à Antena 1 Madeira, aquando da apresentação do livro que escreveu em homenagem ao seu falecido marido, Paulo Martins.

Entenda-se que de Guida Vieira conheço pouco. Ou melhor, conheço aquilo que toda a gente conhece. O seu trabalho e toda a dimensão pública da sua longa e preenchida vida. Agora, aquilo que a mesma abordou, quer no seu livro, quer na referida entrevista, foi algo que particularmente me tocou.

Numa candura que eu nunca lhe tinha reconhecido, Guida Vieira falou abertamente da sua relação com Paulo Martins, a forma como o conheceu, como cresceu a relação, com muitos pormenores curiosos e divertidos. Mas sobretudo falou do que passou após a sua partida. No vazio que ficou. Na ausência das conversas. Na dificuldade em encarar o dia-a-dia. Nos detalhes tão corriqueiros como o facto de ser baixinha e os armários mais altos, que estavam a cargo do seu marido, ficarem agora mais distantes na sua ausência. Ou como escrever o livro se tornou numa espécie de terapia para enfrentar a solidão na qual caiu.

E foi aqui que me caiu, também, a ficha. De facto, o que conhecemos das pessoas? Daquelas que habitualmente entram pela nossa casa diariamente em diversos formatos e que, diariamente, habituamo-nos a dizer bem ou mal, como se de um objeto ou uma espécie de realidade paralela se tratasse. E são tantas. Desde o político ao treinador; do ator ao cantor; do atleta ao apresentador. É do seu lado humano que muitas vezes esquecemos que existe. Porventura, o que conhecemos de todas as pessoas à nossa volta?

O ritmo acelerado das novas tecnologias, particularmente as da comunicação, tem feito com que se assista a uma tremenda e nunca vista evolução na sociedade, mas não sem que essa venha sem senão. Se por um lado o ser humano está cada vez mais desprotegido e ameaçado pela ciência, desde os microfones ocultos às escutas telefónicas e a toda a nova panóplia de invasão de dados, que tem vindo a obrigar à imposição de medidas preventivas (num primeiro momento à elevação da imagem e da palavra a direitos fundamentais, para depois constituírem bens jurídico-penais garantidos), por outro lado esta ‘era do Facebook’ tem tido o condão de banalizar a palavra e a imagem, literalmente transformando as pessoas em avatares e, consequentemente, cada vez mais longe da dignidade a que a figura humana nos obriga.

Prolifera o insulto fácil, a crítica feroz, o escarnio das pequenas características de cada um, físicas ou da personalidade. Escreve-se à velocidade com que se julga, condena-se à velocidade com que se eleva. E esquecemo-nos que, na ânsia daquilo que Kundera descreve como o desejo de imortalidade, de permanecer na memória coletiva depois do desaparecimento do mundo terreno, todos os gestos da humanidade passam a estar condicionados, desde o desejo de se fazer notar através da emissão de opiniões marcadas por um fanatismo militante ao uso do ruído para chamar a atenção e fixar-se na memória dos demais. E tal como Orwell nos ensinou em ‘1984’, esquecemo-nos que é a própria sociedade que, ao nos moldar e a nos submeter às mesmas regras, impõe o paradoxo de que a defesa da liberdade de expressão obriga, na realidade, à uniformidade de gestos e atitudes.

Ignoramos como tal que a vida é tridimensional e que as pessoas têm assim uma dimensão pública, privada e íntima e que, tudo o que façamos ou digamos tem impacto, com consequências muitas vezes não visíveis. E olvidamos que há ali um lado humano, suprapartidário, supraclubístico, suprasupra, que nos torna todos frágeis criaturas a prazo neste mundo.