Deus não habita mais aqui?

A Europa é um dos continentes com mais monumentos, igrejas, capelas, mosteiros e eremitérios religiosos, onde se sente uma presença de Deus e duma população com uma fé vigorosa que consagrou a sua inteligência, criatividade e bens materiais à cultura e à religião. Os outros continentes, de maneira semelhante, estão enriquecidos com monumentos, templos, tanto aos deuses dos seus antepassados, como após a evangelização feita pelos missionários, o cristianismo estendeu-se a todos os continentes e o número de cristãos continua a aumentar nalguns países e a ser perseguido e martirizado noutros.

Considerando principalmente a Europa ocidental, sente-se que a secularização aparece como um factor de desaparecimento agressivo do religioso, uma resistência às questões espirituais, em quase todos os países europeus como “um rolo compressor”, que se estende da Espanha à Suécia, passando pelo Reino Unido, a França, até à católica Irlanda, embora com ritmos diferentes. Na Holanda, num estudo de 2018, pela primeira vez, uma maioria da população afirma não pertencer a nenhuma religião. Este fenómeno é mais acentuado entre os jovens.

Um texto do Conselho Pontifício da Cultura de 17 de dezembro de 2018, após um colóquio na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma, coloca o problema dos lugares de culto e dos bens culturais religiosos, sobre o destino e uso dos antigos edifícios eclesiásticos. Embora não seja um problema novo na história da Igreja, hoje temos a laicização que carateriza a sociedade moderna e, ao mesmo tempo, a consciência do valor histórico artístico e simbólico dos edifícios sagrados e das obras que aí são conservadas. Segue-se daí a reflexão a partir do quadro regulamentar internacional sobre o património cultural, como conservar um edifício se não é utilizado pela comunidade? Na França uma diocese passou de 646 paróquias para 55, com a falta de padres, pensam conferir responsabilidades mais importantes aos leigos. Numa catedral ou igreja sem missa, sem funerais religiosos, sem casamentos, os edifícios continuam com a sua forte carga simbólica, têm uma dimensão sagrada, histórica, o público opina pela sua conservação, é contra a sua demolição. Na França a afectação de uma igreja é indivisível, a queda do património seria dramática, as catedrais antigas são conservadas pelo Estado. Na África do Sul a igreja mais antiga construída pelos portugueses, devido à mudança da comunidade para outros lugares, ficou sem fiéis. Foi decidido pela diocese vender o edifício para ser destruído, os portugueses revoltaram-se contra o bispo, escreveram para o Vaticano para obstar à sua demolição, a mulher mais ativa contra a destruição não era praticante, nem o Estado americano, nem a diocese podem salvá-la, fui chamado para dar uma opinião quando já era Emérito!

Contudo a vida da Igreja noutras partes do mundo está cheia de vida e pujante de beleza. Na Coreia do Sul, em 20 anos o catolicismo passou de três milhões e 900 mil para cinco milhões e 860 mil. Na Rússia, após o encontro do patriarca de Moscovo com o Papa Francisco em Havana, devido também à ação do Metropolita Hilário Alfeev, hoje, após o comunismo agressivo contra a Igreja, das 5.000 paróquias passou-se para 40.000 e de 20 mosteiros hoje contam-se um milhar, não faltam vocações, muitos jovens querem frequentar as faculdades eclesiásticas e mosteiros com muitos monges e monjas. Em cada dia que passa, elevam-se nos céus da Rússia três novas cúpulas de igrejas em honra da Santíssima Trindade. Segundo o ONG “Portas Abertas”, 260 milhões de cristãos são perseguidos, o número de mortos diminuiu um pouco em 50 países. Merece especial menção o “Acordo entre a Santa Sé e a China” em que pela primeira vez o governo de Pequim reconheceu a autoridade do Papa sobre os católicos na China”.