Fogo em várias frentes

Esta semana, a Madeira debateu-se com incêndios fora de época no concelho da Calheta, esteve em lume brando na aprovação do Orçamento de Estado na Assembleia da República e, finalmente, sob intenso fogo cruzado entre médicos do nosso sistema de saúde. Foi este triplo cenário que transformou em inferno a entrada dos madeirenses no mês de fevereiro.

Sem margem para ironias, a população da Ponta do Pargo viveu dias de um estranho Inverno. O fogo assustou pessoas e acumulou prejuízos materiais numa época improvável, obrigando toda a gente a refazer planos de contingência. Oportunidade para relançar a questão da disponibilidade de um helicóptero ‘todo o ano’, quando ainda não há muito tempo se discutia se era eficaz ou não. Nesta questão como na dos incêndios, muda-se facilmente de opinião do Verão para o Inverno…

Fogo cruzado

A classe médica da Madeira protagonizou uma semana plena de alvoroço interno, obrigando a Ordem dos Médicos a vir a público considerar “inaceitável a existência de partidarização da saúde”, enumerando depois uma série de raspanetes muito diretos: “Um diretor clínico que não seja reconhecido interpares e não consiga estabelecer empatia com as equipas de saúde e, nomeadamente, com os médicos, está condenado ao insucesso a muito curto prazo”.

O bastonário da Ordem dos Médicos e o Conselho Médico da Madeira expressam o desejo que prevaleça o bom senso e que “sejam ouvidos aqueles que todos os dias fazem o Serviço Regional de Saúde da Madeira.” Uma mensagem subtil de longo alcance.

Com os focos luminosos centrados nos serviços médicos dos nossos hospitais, a população não pode estar mais descansada. Outra coisa é a sã convivência ‘partidária’ entre os médicos dos vários serviços.

No caso da polémica nomeação do ex-deputado Mário Pereira para a direção clínica, é bom que se saiba que ela aconteceu após um rocambolesco processo que fez abortar as primeiras alternativas. Todas politizadas. Até porque qualquer que fosse a decisão, mesmo na hipótese de ter havido um governo diferente, qualquer nomeação sofreria da tal “partidarização” que a Ordem dos Médicos condena. Sempre foi assim e sempre continuará a ser.

Outra coisa bem distinta é que um número expressivo de médicos se manifeste e se sinta incomodado com quem passou dez anos “a dizer mal” dos colegas e do hospital – e que esse alguém se apreste para ali entrar e dirigir. Como se nada fosse com ele.

Se assim foi, e se tudo é assim tão linear, há razões objetivas para insatisfação. Mas, sobretudo para quem não sofra de problemas de memória, nos últimos 20 anos tem sido raro o momento em que a gestão hospitalar não esteja envolta em disputas, polémicas, punhaladas e traições. Um entra e sai que nos põe doentes.

É por tudo isso que a “partidarização” só pode ser uma falsa questão, também na saúde. Seria muito bom poder dispensá-la, mas é quase impossível. Ainda recentemente houve eleições regionais, com a saúde em destaque em todas as discussões. O partido que perdeu as eleições apostou quase tudo nessa área, com médicos e tudo; se tivesse ganho, a “partidarização” seria tão indisfarçável como a que lá está hoje. Provavelmente com mais pedidos de demissão.

Mobilidade a 86 euros

Mais cedo do que seria previsível, a Assembleia da República deu ‘luz verde’ para que os madeirenses possam deslocar-se ao continente português pagando apenas os 86 euros que lhes compete. Ou seja, deixando de ser o contribuinte a adiantar a diferença, normalmente escandalosa, a que as companhias aéreas têm direito.

Resta esperar pela entrada em vigor, efetiva e real. Se a aplicação prática for demorada ou empurrada para a frente, os contribuintes têm direito a exercer a sua repulsa. Que não se intimidem!