Ele está no meio de nós

Mesmo os crentes que, no dia a dia, não o pensam e tomam acriticamente, já se terão interrogado sobre a existência de Deus e a influência que tem na sua vida.

A dúvida surge sobremaneira em tempos de sofrimento ou injustiça. Onde está Deus para aquele que desesperadamente o interpela, na iminência de uma morte precoce, para a criança que morre de cancro, na fome em África, na desigualdade social e económica, nos genocídios que actualmente perduram? Onde estava Deus no holocausto nazi? E tantos outros lancinantes questionamentos se poderiam aventar. Está escrito algures que Deus criou o homem e o fez à sua imagem e semelhança. Mas não terá sido o homem que criou Deus na exacta medida das suas necessidades de consolo paternal perante as iniquidades da vida e sobretudo na falta de explicação para o sentido da existência e da sua finitude essencial, para o cruel desperdício da bagagem vital que a morte constitui? É reconfortante perspectivar-se alguém omnipresente e omnisciente que vela por nós, lá em cima, num olimpo azul e a quem se pode recorrer em silêncio. Mas que, afinal, nos falha tantas vezes ou quase sempre, quando é aflitivamente interpelado para intervir cá em baixo, ao lado de nós.

Acreditar em Deus é inquietante, para aqueles que o pensam, mas não acreditar introduz um elemento de vazio, de falta de sentido para as coisas, se é que elas o têm, numa orfandade inexorável ainda mais inquietante. A descrença coloca o homem ao sabor do livre arbítrio, das espontâneas coincidências, das correlações de forças, dos desígnios dos poderes, enquanto mero objecto da natureza que nasce, cresce e morre, sem a mão de uma entidade superior que o guie e apoie. No limite de angústia existencial, entre uma esperançosa e infantil explicação e uma realidade crua sem qualquer nexo, os seres em sofrimento optarão desesperadamente pela primeira. Porque Deus é apelo, chamamento, instância de recurso agoniada quando tudo o mais falha, na nossa implacável fragilidade morrente. Porque a felicidade não precisa de Deus.

E pouco importam as liturgias, as iconografias, as hierarquias erigidas para dar expressão à suposta mensagem que dele emana, se não se densificar, no meio de nós, a concretização da sua palavra e princípios. Mais do que uma ladainha enfadonha e anacrónica dos coríntios e quejandos, numa distanciação discursiva e ritual e os requintes dourados de pomposos paramentos e a opacidade de muros em palácios sumptuosos, é preciso dar acção à palavra, voz aos problemas reais, que mordem o osso em dor, ali ao lado, na rua, no meio dos que sofrem e precisam de apoio e consolo, ou de uma voz que os represente perante a iniquidade.

A realidade revela que aquilo que se procura entrever lá por cima numa entidade difusa, a ideia de Deus, está tão só e afinal no meio de nós. Ele está no meio de nós, sim, no coração e no carácter de cada homem que na busca de sentido para a sua existência e realização o encontra no amor, na solidariedade, na fraternidade, nos valores da justiça, da igualdade e da paz.

Há os homens que têm Deus no coração, seja qual for a sua ascendência ou conhecimentos. E há os que nele não têm nada para além de uma fria e cortante racionalidade, do homem lobo do homem, de sisos trucidantes das carnes e da esperança dos irmãos e só isso explica os focos de pobreza, de fome, de guerra, os rastos de miséria atroz dos Luanda leaks , os genocídios, que impõem que, num chão que devia dar para todos, uns vivam e outros sobrevivam. Ou nem isso.