Onde está a chave da porta?

Um estudo divulgado em 2019 pela GFK indicava que, para os portugueses, a classe profissional menos confiável era a dos políticos.

O ranking era liderado pelos bombeiros, com um índice de confiança de 94%, seguindo-se médicos e professores (ambos com 88%), surgindo os polícias na posição imediata, com 77%.

No fundo da tabela, destacavam-se pela negativa os sindicalistas (38%), os banqueiros (36%) e… os políticos, a merecer a confiança de uns míseros 18%.

Desde logo, há duas questões a colocar:

1ª – Como é possível que, apesar do descalabro e dos sucessivos escândalos no sector financeiro nacional, os banqueiros mereçam o dobro da confiança dos políticos?

A resposta, a meu ver, deriva da crescente intersecção entre a banca e a política (o termo “promiscuidade” não seria escusado). A política tem, também, sido placa giratória para os lugares de topo do sector empresarial, pelo que é sem surpresa que os directores de empresas surgem no 4º pior lugar desta lista, com um índice de confiança de apenas 40%.

2ª – Porque é que as actividades de “sindicalista” e de “político” são classificadas como profissões?

Na verdade, em ambos os casos, a verdadeira profissão deveria ser outra:  os sindicatos são (ou deveriam ser) movimentos organizados de representação e defesa dos trabalhadores, na mesma medida em que os partidos políticos são (ou deveriam ser) movimentos organizados de representação e defesa dos cidadãos.

Na prática, porém, a percepção generalizada, até mesmo para as empresas de estudos de mercado, é de que se está perante carreiras profissionais.

Focando-me exclusivamente na classe política, o ódio visceral que suscita num número cada vez maior de cidadãos tem algumas causas evidentes e um principal responsável: a própria elite política.

Com efeito, e ao contrário do que sucede noutros países, quase não há mobilidade social no nosso espectro partidário. Sucessivas gerações de líderes, cúpulas e estruturas dirigentes rodearam-se dos seus “semelhantes”, foram chamando a si os mais próximos do seu círculo, recrutando exclusivamente a partir do topo.

Desde Abril de 1974, as elites políticas têm sido constituídas por pessoas de nível económico médio-alto/alto, raramente provenientes da base da pirâmide social. As parcas excepções (como Jerónimo de Sousa, que começou a trabalhar aos 14 anos como afinador de máquinas e subiu na hierarquia do PCP por via do sindicato dos metalúrgicos) mais não fazem do que confirmar esta regra, que nega a ascensão partidária aos cidadãos mais desfavorecidos. O facto de o recrutamento de quadros ter vindo a ser progressivamente feito em círculos restritos e nas incubadoras partidárias (vulgo jotas), aliado à quase total ausência de mecanismos internos de supervisão e controlo, redundou numa espécie de “consanguinidade”: ao fim de algumas gerações, os “erros de ADN” são evidentes. O resultado está à vista: os protagonistas políticos são, cada vez mais, figuras medianas e sem espessura ideológica, meros gestores de grupos de interesse (e do interesse de alguns grupos).

É neste cenário que medram os medos e se agiganta a revolta de um povo que, por sinal, é dos que revela menores indíces de participação e intervenção cívica, a nível europeu. Alheados dos principais problemas estruturais do país, pouco cientes do funcionamento das instituições e manietados por uma justiça (pilar fundamental da democracia) inoperante, os cidadãos acolhem como “um deles” qualquer criatura que lhes amplifique a raiva, mesmo que se limite a traduzi-la em impropérios vagos e demagógicos contra “eles” – os “políticos”.

Será tarde demais para franquear o acesso à torre de cristal onde se trancaram, ou já não sabem onde esconderam a chave?