As sobras da Festa (o varrer dos armários)

Está quase. O tempo comum regressa, lentamente, às nossas vidas; desmanchamos, com alguma nostalgia, o presépio e a árvore de Natal; o Martinho faz dançar os pais-Natal mais uma vez, ainda mais uma vez, para que o espanto permaneça guardado nas paredes; tiramos mais uma fotografia para que o registo (ao qual talvez não regressemos) nos dê a ilusão de que eternizamos o momento.

Já começamos a sentir o cansaço dos dias festivos, do excesso de luz, da falta de silêncio, da impossibilidade de desertos. Aos poucos, vamos despindo as casas, enrolando as gambiarras, guardando os brilhos, embrulhando o que tem de ser embrulhado. Começamos cedo a enfeitar a vida, a comprar presentes, a correr. Começamos cedo a correr para o Natal e ele veio e está quase a ir.

Por estes quases (o mês de janeiro já vai a meio), varremos os armários, oferecemos o que nos sobrou de broas e de licores, acendemos pela última vez, as luzes do pinheiro e dizemos, como bons madeirenses,

– Agora, só para a Festa.

Deixamos, porém, um armário por varrer: o de dentro, o que guarda as verdadeiras sobras do Natal: os encontros, as conversas, os abraços, as saudades, aquilo que ficou depois das luzes se apagarem. Aí dentro, arde um lume manso que aquecerá as noites mais frias e não deixará que os nossos olhos escureçam. Aí dentro, fica o que é preciso ficar depois de termos passado pela experiência de mais um Natal. A verdade é que o Natal é sempre um acontecimento fundador, um princípio, um pretexto, uma oração rezada com os sentidos. Nesse armário, ficam as memórias dos sentidos, da visão, do som, do cheiro, do toque, do sabor, mas ficam, sobretudo a dos sentires, mesmo que os sentires tivessem doído um bocadinho, neste Natal. Nesse armário, ficam as pessoas, as que estiveram e as que deixaram vazio o seu lugar à mesa. E fica a luz. Fica sempre a luz. É ela que nos dará alento para voltar a fazer tudo outra vez.