Faz o que tu queres. Não faças o que eu faço

Acho curioso o poder da notícia.

Para além do óbvio que é agradar a uns e nunca a todos, é capaz de provocar uma onda de repetição. Vejamos! Fomos confrontados com uma agressão a um médico. E a malta debruçou-se sobre o assunto... “Olha. Como é que nunca me lembrei?! Vou aproveitar a consulta da renovação da baixa para arriar no imbecil do clínico que me atender”. “Ai o gajo está com um bronze de fazer inveja quando aqui não faz sol? Aposto que foi a um congresso pago por algum laboratório das pastilhas que me anda a prescrever há mais de 7 anos e não me fazem efeito nenhum... É desta que ainda vai ficar mais escuro”. Ou até “sapateiro da treta tem uma casa com piscina e deu um cabriolet à mulher à minha custa e ainda me desmarca a consulta de véspera? Não perdes pela demora” ... E aqui vai disto! São logo, para aí, mais meia dúzia de tareias de uma assentada só.

Nos suicídios é a mesma coisa. Ups! Não se deve escrever “suicídios”. Nos auto-extermínios. Não. Também não me parece bem. Nos auto-homicídios! Isso existe?! Olhem, não vou complicar. Já perceberam do que estou a falar...

Já deram conta de que depois de um “acidente”, há sempre mais uns dois ou três?

“Mulher sofre queda de ponte”, “homem escorrega do pináculo” ou “jovem desequilibra-se e fica pendurado pelo pescoço”! Chiça. Há gente com azar. Só pode.  Ou então é obra do que defendeu Werther. Dizia que uma morte provocada pelo próprio (reparem que evitei provocar alarme escrevendo suicídio), amplamente divulgada tende a fazer-se acompanhar por uma série de acontecimentos idênticos.  Chamava-lhes mortes (não suicídios, nunca) por contágio.

E isto está estudado. É real. Merece a nossa atenção. Mas acredito que merece muito mais a nossa preocupação, o facto de nós não termos vontade nenhuma de copiar notícias positivas. “Homem passa de sem abrigo a milionário através do seu trabalho”.  A não ser que seja a vender droga, não vejo ninguém com vontade de querer ser notícia nos tempos mais próximos. “Mulher sacrifica-se com mais do que um trabalho para alimentar os seus filhos”. A maior parte ainda se vai insurgir com o governo e procurar saber porque não foram atribuídos subsídios à coitada, ao invés de ir procurar (mais) trabalho.

Resumindo. Eu se vir um fulano em contramão na via rápida, não fico tentado a fazê-lo! Se observar um bêbado aos ziguezagues com piela e meia, recuso-me a beber só porque quero ser solidário na ressaca do dia seguinte. Juro que se souber que um político rouba o meu dinheiro, não... Bem! Não sei... acho que só não o faço também porque não tenho oportunidade. Regra geral eles já não têm nada em nome deles!   Enfim...

Vou ver o que está a fazer a minha mulher a ver se me inspiro! Só espero que não esteja a arrumar a casa.... É que começo logo com um formigueiro no corpo! Depois, uma baixa de tensão. Só me passa se me deitar umas duas horinhas. E não queria perder o dia!