Não perder os nossos melhores

Um dos principais problemas das empresas portuguesas é “a fraquíssima qualidade da sua gestão”, afirmou recentemente o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, A.Santos Silva, naquilo que acabou por gerar imensa polémica no país e obrigou a um pedido de desculpa e esclarecimento.

As declarações foram proferidas em Coimbra, há relativamente pouco tempo, junto de graduados portugueses no estrangeiro (alguns dos nossos melhores, que acabaram por sair por não encontrarem condições de fixação), mais concretamente no 8.º Fórum Anual de Graduados Portugueses no Estrangeiro, que decorreu no Departamento de Matemática da Univ. de Coimbra.
   Paradoxalmente, ou não, as empresas que se estão a instalar no país requerem recursos humanos qualificados e localizações próximas de centros de investigação e universidades, sendo que as empresas estrangeiras, que investem em Portugal, confrontam-se crescentemente com falta de mão-de-obra qualificada - em grande medida doutorados. A este nível pode mesmo constatar-se que o panorama português é de escassez de mão-de-obra qualificada e não de abundância de mão-de-obra qualificada sem saídas profissionais.
   Não entrando na polémica, muito em parte induzida por questões valorativas e de subjetividade, motivada pelas expressões usadas e descontextualização inerente, cinjamo-nos aos factos e suas incidências.
   O estudo “Retrato de Portugal na Europa, 2019”, da PORDATA https://www.pordata.pt/ebooks/PT_EU2019v20191020/mobile/index.html, naquilo que respeita às qualificações dos empregadores em Portugal é paradigmático. Os números ditam que em cada 100 empregadores portugueses, perto de 50 não têm o ensino secundário ou superior (há 25 anos eram 79 em cada 100). A média europeia é presentemente 16,6%. Este número coloca-nos mesmo no topo da lista de países onde o empresariado têm menos formação. Logo de seguida surgem Malta, Espanha, Itália e Grécia.
   Não havendo uma relação absolutamente direta, até porque os indicadores nesta dimensão respeitantes aos trabalhadores não são muito dispares; na verdade, são também estes fatores -de forma conjunta e global, que ajudarão a explicar a baixa produtividade laboral por hora de trabalho. Neste particular, Portugal fica 35,9 pontos percentuais abaixo do valor de referência para a UE, de 100%, o que nos coloca no 11.º lugar na lista dos menos produtivos, que é dominada pela Bulgária. É que, não olvidemos, a produtividade enquanto fator implica uma complexidade de elementos nos quais a melhor e mais eficiente utilização de todos os recursos, onde o gestor é o responsável, está na origem da explicação para a obtenção dos melhores resultados da empresa e da sua competitividade e prosperidade.
   Estes indicadores somados assim, enquanto país, acabam sendo relevantes pelo seu impacto no desempenho da economia em Portugal. Correspondem a compromissos que os países europeus estabeleceram como meta 2020 e que Portugal subscreveu -e ainda não alcançou, e coloca-nos sob permanente competição.
   Nunca é por demais renovar que o grande desafio que se coloca a Portugal é do crescimento, onde a competitividade acaba desempenhando um papel crucial.
   Urge, pois, inverter esta tendência de deixar “fugir” os mais capazes e habilitados.   Urge até, diremos, compensar gradualmente aquela saída, que coloca Portugal como o Estado membro da UE que vem tendo uma taxa de “emigração qualificada” das mais elevadas, sabendo-se que dentro de um espaço globalizado, no qual nos posicionamos, se não podem impor quaisquer restrições à livre mobilidade das pessoas.
   Cumpre, portanto, encontrar mecanismos que levem à criação de condições de “fazer perceber” a importância da atratibilidade e fixação dos nossos melhores. Políticas públicas que coloquem a melhoria da qualificação, também para os empregadores, agora até que se abrem novos compromissos europeus, será determinante no esforço de aproximar Portugal.

 

Eduardo Alves escreve
à segunda-feira, de 4 em 4 semanas